///
A Infinita Fiadeira
A jovem aranha era diferente das outras: tecia sem parar, criando teias de beleza única, mas sem nenhuma utilidade prática. Ignorava os costumes de sua espécie, que usava as teias para caçar ou se reproduzir. Para ela, tecer era arte, não instinto. Seus pais, preocupados, tentaram fazê-la seguir os caminhos tradicionais, mas ela continuava a criar por puro prazer.
Acreditando que o problema era falta de amor, os pais organizaram um encontro. A aranha se apaixonou e mostrou ao namorado sua coleção de teias, oferecendo uma como prova de afeto. A família, frustrada, apelou ao Deus dos bichos, pedindo que ela fosse transformada em humana. E assim aconteceu: a aranha virou gente, mas continuou dizendo que fazia arte.
No mundo dos humanos, ninguém entendia o que era arte. Alguns lembravam vagamente de tempos antigos em que isso existia, mas já haviam esquecido. Ironicamente, os poucos artistas que restavam tinham sido transformados em bichos... talvez em aranhas. E assim, a fiadeira seguiu tecendo, agora como humana, sua arte sem fim.
Mia Couto − Texto Adaptado.
No trecho "Alguns lembravam vagamente de tempos antigos em que isso existia, mas já haviam esquecido", o pronome "isso" desempenha papel importante na coesão textual.
Com base na norma culta da língua portuguesa e nos mecanismos de referência textual, assinale a alternativa correta.