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“Liberal” é uma palavra traiçoeira. É o adjetivo com que os conservadores americanos xingam a esquerda, ou o que julgam ser a esquerda, no seu país, mas no resto do mundo é o oposto de conservador. A confusão é antiga. Em inglês, “liberal” já quis dizer licencioso, ou libertino. Shakespeare descreve alguém como sendo um “liberal villaine”, um vilão liberal, querendo dizer que é um canalha completo. Em todo mundo, mesmo onde se fala inglês, “neoliberalismo” significa uma nova versão do liberalismo econômico do século XIX. Mas o liberalismo de então se opunha ao mercantilismo e ao poder da elite agrária e do conservadorismo e tinha um sentido progressista. E na sua versão atual, se opõe ao dirigismo do Estado e ao controle da empresa livre e, na sua aversão a qualquer ideia distributivista ou solidarista que atrapalhe os negócios, recupera o sentido shakespeariano da palavra. Mas para aumentar ainda mais a confusão, muitos dos neoconservadores de hoje têm este nome porque no passado foram “liberais” progressistas, alguns até trotskistas.
O único regime econômico viável para um neoliberal seria o liberal no mau sentido, na opinião de um liberal no outro sentido. Com o suposto acaso das ideologias e o fracasso do socialismo real e do capitalismo de Estado, não haveria mais alternativa para o moral do mercado dominar as nossas vidas. Democracia formal não garante democracia econômica, como o Brasil não nos cansa de ensinar, nem a liberdade de lucrar sem controle ou remorso é a primeira condição para uma democracia funcionar, como insistem os neoliberais. Fala-se no fim das utopias, mas sobreviveu o utopismo mais irracional de todos, segundo o qual pela ganância e egoísmo se pode chegar a qualquer ideia de comunidade e justiça.
O neoliberalismo só acredita na sua doutrina porque a mantém apesar de todas as evidências de que também não deu certo, e nos trouxe para esta crise, em que um sistema financeiro hipertrofiado e desregulado ameaça arrastar todo o mundo para o precipício.
Leituras. Na Renascença ninguém disse “Oba, estamos na Renascença!”. Vivemos para frente, mas entendemos para trás e só sabemos o que nos aconteceu “lendo” o passado. E, às vezes, lendo errado. A gente fala nos loucos anos 20, quando várias liberdades novas começaram a ser experimentadas no rescaldo da Primeira Guerra Mundial, e esquece que foi a era que gerou o fascismo e outras formas liberticidas. O espírito da “Era do Jazz” foi um espírito totalitário: prevaleceram não os passos do Charleston, mas os passos de ganso. Os plácidos e sem graça anos 50 não foram tão aborrecidos assim. Foram os anos do existencialismo, das revoluções na arte e na literatura, do nascimento do rockenrol... Nos fabulosos anos 60 e 70, enquanto as drogas, o sexo e a comunhão dos jovens pela paz e contra tudo que era velho tomavam as ruas, o conservadorismo se entrincheirava no poder (Nixon nos Estados Unidos, os generais aqui, Margareth Thatcher e Ronald Reagan já no horizonte) e começava sua própria revolução careta. Quando fizerem a leitura da época atual, qual será a conclusão errada? Que o mundo se tornou mesmo uma aldeia global unida pela técnica ou que se dividiu ainda mais entre ricos e pobres e entre inteligência artificial e fundamentalismos, misticismo e outras formas de atraso? E no Brasil: o que é mesmo que está nos acontecendo?
Tchau. Vou tirar férias. Sem foguetes, por favor. Volto no dia 2 de novembro. Até lá.
“Na renascença ninguém disse ‘Oba, estamos na Renascença!’” (4º§) Analise as afirmativas sobre os recursos expressivos utilizados nesse trecho do texto.
I. O cronista cita diretamente uma outra voz, ainda que em potencial, devidamente marcada por aspas.
II. O cronista poderia ter incorporado a frase “Oba, Estamos na Renascença!” ao seu discurso, se o citasse diretamente no texto.
III. O verbo “dizer”, utilizado para introduzir a frase “Oba, Estamos na Renascença!”, está flexionado no tempo pretérito imperfeito do modo indicativo.
IV. Na frase “Oba, Estamos na Renascença!”, há uma interjeição, isto é, uma palavra variável que exprime uma emoção.
Estão corretas apenas as afirmativas