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Pretende-se discutir aqui alguns aspectos da obra de Gilberto Freyre focalizando seu livro de estreia, Casa-grande & senzala, cuja publicação em 1933 levanta questões até hoje importantes para o entendimento do passado brasileiro.
Cabe observar, antes de prosseguir, que o debate intelectual sobre os destinos do país estava, naquele momento, profundamente marcado pelo tema da mestiçagem. Mas a mestiçagem, isto é, o contato sexual entre grupos étnicos distintos, costumava ser apresentada como um problema: ora implicava esterilidade − biológica e cultural −, inviabilizando assim o desenvolvimento nacional, ora retardava o completo domínio da raça branca, dificultando o acesso do Brasil aos valores da civilização ocidental.
O enorme impacto produzido pelo surgimento da obra, que aprofundava a contribuição pioneira de alguns outros autores como Manuel Quirino, Lima Barreto e Manoel Bomfim, concorreu para alterar essa avaliação, ao enfatizar não só o valor específico das influências indígenas e africanas, como também a dignidade da híbrida e instável articulação de tradições que teria caracterizado a colonização portuguesa. Isso só foi possível, segundo o próprio Gilberto, pelo seu vínculo com a antropologia americana e com a orientação relativista de Franz Boas − ele obteve um título de mestre em Columbia, em 1922 − que lhe teria permitido separar a noção de raça da de cultura e conferir a esta última primazia na análise da vida social.
No segundo parágrafo,