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O texto abaixo transcrito constitui a unidade 57 da obra 234: ministórias, do escritor curitibano Dalton Trevisan, publicada em 1997.
– Os dois irmãos eram os piores inimigos. Bem me lembro no enterro da velhinha. Eles seguravam a alça do caixão – e não se olhavam. Pálidos, mas de fúria. Nem a cruz das almas comoveu os dois. Se odiavam tanto que a finadinha bulia sem parar entre as flores.
− Nunca me senti tão só, querida, como na tua companhia.
Abaixo está transcrito um recorte que foi feito do texto que o escritor e crítico literário Cristovão Tezza publicou, na íntegra, no jornal O Globo, na secção Prosa & Verso, no dia 26/4/97. Título: As 1001 noites de Dalton Trevisan: violência seca colore vitral de Dalton Trevisan.
Talvez o modo justo de começar uma resenha sobre um livro de Dalton Trevisan − qualquer um − seja
reconhecer, afinal, que estamos diante de um grande mestre da literatura brasileira; mais que isso, diante do último
sobrevivente de uma estirpe rara, a dos criadores de linguagem.
Mas [...] é preciso advertir: não é fácil gostar de Dalton Trevisan. Muito mais fácil é detestá-lo. Não pense que
ele distrai na praia, nem que ele melhora a passagem do tempo, página a página, língua de fora esperando o que vai
acontecer adiante.
[...]
E não há como escapar, gostemos ou não: [...] (n)enhum outro escritor brasileiro, hoje, terá o impacto, o
poder de síntese, a violência, a absoluta, seca, irredimível brutalidade da frase de Dalton Trevisan. Mas atenção: não
se trata apenas do domínio técnico, do bom artesão burilando sentenças, o parnasiano da desgraça − não são elas,
as frases enxutas, que nos tocam, mas o universo sufocante detonado por elas na cabeça do leitor, palavra e visão
de mundo inextricáveis no seu texto.
[...]
Mas há ainda, o leitor terá percebido, outra dimensão daltoniana a ser lembrada: ele tem o poder demolidor
da gargalhada. Em toda sentença de Dalton, há sempre um narrador que ri, há um poder de sátira que nos
contamina, que nos torna inescapáveis cúmplices da visão de mundo daltoniana, porque diante da sua frase não
podemos, mesmo compartilhando o horror que revela, esquecer a graça corrosiva que conta. O riso subterrâneo é a
vacina daltoniana contra qualquer sombra de afeto, contra o fantasma da compaixão e da solidariedade,
inelutavelmente, brutalmente falsas, das quais ele fugirá para todo o sempre como o vampiro foge da cruz.
Como se advertiu acima, não é fácil gostar de Dalton Trevisan.
A leitura do texto de Cristovão Tezza, associada à das ministórias de Dalton Trevisan, NÃO abona a seguinte assertiva: em seu texto, Cristovão Tezza