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Por que não lemos mais os clássicos?
A tradução das “Metamorfoses” de Ovídio diminui o desconforto de não dispormos em português de uma coleção de autores clássicos. A quem reclamaríamos sua falta? Até porque não adiantaria lamentá-lo. Ao contrário, comece-se por observar que o leitor não especializado nas culturas antigas — como tampouco sou — não reconhecerá que o texto capital de Ovídio, escrito no ano 8 d.C, nele provoque a reação que se espera suscitada pelas grandes obras. A discrepância decorre de o horizonte de expectativas a que a obra antiga respondia manter-se distante do horizonte que se socializa desde o advento dos tempos modernos.
Para melhor esboçá-lo, dois dados propostos por Italo Calvino, em “Por que Ler os Clássicos”, tornam-se indispensáveis. Em primeiro lugar, no horizonte em que cabe Ovídio, a concepção do humano é tão ampla que se distende desde os deuses até às plantas e às pedras. Desse modo, o processo metamórfico a tudo inclui. Por isso mesmo, destaca-se, em segundo lugar, que a concepção do universo partilhada pelo poeta romano desconhece o vazio. Nas palavras de Calvino: “Continuamente se decantam nas ‘Metamorfoses’ novas concreções de histórias como nas conchas das quais pode se gerar a pérola”.
Por isso proliferam relatos a se multiplicar por seus 15 livros por sua vez desdobrados em sub-relatos. Sim, a obra maior do poeta é uma enciclopédia dos mitos cosmogônicos e etiológicos do mundo greco-romano. É de se crer que, para o leitor (ou ouvinte) do passado distante, os relatos dos deuses e dos heróis humanos, respondendo a crenças ou a lendas a ele familiares, não provocassem estranheza. Para o leitor contemporâneo, tal familiaridade não mais existe.
Por sorte de nosso leitor, a restrição diminui nos episódios muito provavelmente por ele conhecidos. Por exemplo, o caso de Narciso, apaixonado por si, cujo encontro com a ninfa Eco converteria sua autoadoração em suicídio; ou relativo à impossibilidade de Orfeu de trazer Eurídice de volta à vida. A travessia das “Metamorfoses”, na tradução de Domingos Lucas Dias, fará que o brasileiro leitor encontre alguns outros pontos de apoio.
A referência à obra de Italo Calvino, no segundo parágrafo, serve ao propósito discursivo de