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No limite, o barulho constante das ruas, absorvido pelo indivíduo como algo alheio a sua influência, acaba sendo abafado, ao passo que os excessos sonoros dos vizinhos são percebidos como indesejáveis e como violações da intimidade pessoal. A vítima do barulho se sente expulsa da própria casa, invadida, seu espaço interior destruído. Ela é forçada a recuar até suas últimas trincheiras, e o barulho se impõe então como uma forma insidiosa de violência. E, reagindo a essa sensação de estar sendo atormentada, vez por outra, a vítima toma uma atitude radical. Muitos incidentes que chegam às páginas dos jornais, um dos mais recentes ocorrido em São Paulo, atestam isso, e o fenômeno está presente em diversas sociedades: os homens (nunca, ou quase nunca, as mulheres) sentem-se incomodados com o barulho e, sem conseguir sensibilizar os vizinhos e fazer com que abaixem o som, acabam pegando uma arma e atirando contra eles ou contra os arruaceiros que teimam em ficar escutando música no último volume bem embaixo de sua janela, às vezes em plena madrugada. Uma violência responde à outra, traduzindo o sentimento de impotência da pessoa que se encontra à mercê do barulho e também seu sentimento de não poder suportar tamanha invasão de si. O conto de Kafka A Construção ilustra muito bem essa violência do barulho que acaba por tornar impossível qualquer repouso, inviabilizando mesmo a própria existência. Mas os barulhos produzidos por nós mesmos não são percebidos como incômodo: eles têm um sentido. Quem faz barulho são sempre os outros.
É correto afirmar que