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Elas estão mais calculistas
Meninos ganham jogos de montar, carrinhos e brinquedos que os levem a imaginar como explorar e moldar o mundo. Meninas ganham bonecas, panelinhas e brinquedos que as levem a fingir cuidar da casa. Essas foram as regras discriminatórias para presentear crianças, durante muito tempo. A mudança vem aos poucos. Em 2012, pela primeira vez em 50 anos de existência da Barbie, sua fabricante, Mattel, lançou nos Estados Unidos um estojo que une a boneca e blocos de montar, para que as meninas construam e redecorem como quiserem uma mansão de brinquedo. O lançamento reflete uma novidade mais abrangente. Conforme gerações de meninas criadas de forma mais igualitária tornam-se maioria nas escolas e chegam ao mercado de trabalho, cresce a participação das mulheres em profissões das áreas de ciências exatas, principalmente nas engenharias. O impacto é sentido na sociedade inteira. O avanço das mulheres nessas profissões tem sido muito mais lento e incerto que a conquista da igualdade de direitos entre os sexos.
O interesse crescente das adolescentes brasileiras pelas exatas passou a se manifestar nos números do vestibular. Em 2012, a parcela de candidatos do sexo feminino às carreiras de exatas na Universidade de São Paulo (USP) subiu para um terço. Em 2005, esse número era de um quarto. Superada a barreira de acesso, 30% dos alunos da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) são mulheres, parcela muito superior à média na Europa, de 20%, e nos Estados Unidos, de 8%.
No caso das ciências exatas, a baixa presença feminina, historicamente, não se devia à rejeição das mulheres a essas carreiras, mas sim ao fato de que elas não podiam ingressar nelas ou não as percebiam como uma possibilidade, por causa da falta de modelos, diz a pesquisadora Natalia Fontoura, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.
O cenário começou a mudar por causa da educação recebida pelas meninas em casa. Hoje, os pais querem que elas se sintam satisfeitas e tenham prestígio profissional, seja em que área for, e tratam filhos de ambos os sexos de forma mais parecida. A profissional de estatística Cris Crisci, diretora da Lopes Inteligência de Mercado, diz que esse ambiente familiar foi decisivo para sua formação. “Tenho um irmão e uma irmã. Meus pais não diferenciavam brinquedos de menina e de menino. Brincávamos juntos com jogos de montar”, afirma Cris.
Um segundo fator que abriu as opções para as meninas foi a mudança no ambiente escolar. Aos poucos, as escolas passaram a mostrar mais claramente aos alunos as possibilidades profissionais a sua disposição.
As mudanças no processo de formação foram acompanhadas por uma transformação no mercado de trabalho. Algumas carreiras antes masculinizadas passaram, nos últimos anos, a demandar muito mais profissionais. É o caso da engenharia civil.
O fato de mulheres se sentirem estimuladas a seguir carreiras em áreas de exatas acarreta benefícios econômicos de longo prazo para elas mesmas, para sua família e para a sociedade.
Os países em que as mulheres não podem ou não querem assumir essas funções contam com apenas a metade da reserva de inteligência de que a sociedade dispõe.
Torna-se mais importante aproveitar todos os recursos existentes da maneira mais eficiente possível e derrubar quaisquer barreiras entre o gênero do cidadão e o trabalho que ele gostaria de fazer (o mesmo vale para os homens).
Com a frase do 8.º parágrafo – Os países em que as mulheres não podem ou não querem assumir essas funções contam com apenas a metade da reserva de inteligência de que a sociedade dispõe. – a autora do texto