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Sento à mesa com o estômago dançando de tanta fome. Há quarenta minutos, eu, minha cunhada e as duas sobrinhas esperamos a feijoada descongelar. A carne-seca, o toucinho e o paio imersos no caldo negro são, finalmente, apresentados. Encho o prato, degusto a primeira garfada. Puro sabor de asfalto. As duas sobrinhas quase desmaiam de enjoo, enquanto minha cunhada dá a notícia: – Queimou.
Um sentimento de tragédia paira no ar. As três sabichonas mal sabem fritar um ovo. Proponho fugir para um restaurante. Concordam, entusiasmadas. Saímos em direção ao mais próximo. Pouco depois, com as cabeças enfiadas em tigelas de feijão-preto, conversamos. Estou surpreso: não sabem cozinhar nem numa situação de emergência?
– Uma vez eu fiz uma sopa num acampamento – conta uma das sobrinhas. – Mas de pacotinho!
É uma constatação: as mulheres andam com orgulho de ficar longe do fogão e das panelas. Fico impressionado com o número de mães que criam seus filhos à base de salsicha e hambúrguer.
Essa geração acha vantagem confundir berinjela com abobrinha. As que cozinham melhor são especializadas num único prato. Conheço uma garota que adora fazer frango no azeite. Afoga peitos e coxas numa forma repleta de óleo e deixa no forno até secar. Se algum convidado tiver colesterol alto, morre no jantar. Outra se sente o máximo quando coloca macarrão, que mais parece chiclete, na minha frente.
Um amigo recém-casado diz que a mulher só sabe fazer estrogonofe. Cada vez que ele vê os pedacinhos de carne boiando no molho tem vontade de chamar a mãe. Outro dia pediu para a esposa fazer um bolo. Saiu um pedaço de cimento.
Algumas mulheres, mais cruéis, vivem fazendo regime e submetem o marido a ele. Um rapaz começou a emagrecer. Quando estava quase despencando, revelou: – No jantar, só salada de alface e cenoura ralada. Ela emagreceu, eu sumi. O pior é que ela me faz ralar as cenouras, para não quebrar as unhas. Às vezes acordo no meio da noite sonhando com um belo bife.
No último natal, ofereci a uma prima um livro de receitas. Meses depois me convidou para jantar. O menu: comida chinesa, entregue em casa. Surpreendido, perguntei-lhe: – E o livro que te dei de presente?
– Estou lendo! – respondeu alegremente.
– Não é um romance para ler! É para fazer!
Ela me encarou, magoada. Mesmo assim, pretendo continuar a presentear as mulheres com livros de receitas. Pode ser até que não dê certo, mas adoro a expressão de susto delas quando abrem o pacote!
(Waleyr Carrasco. Pequenos Delitos e Outras Crônicas. Adaptado)
Conforme o texto, o autor considera que as mulheres