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A Internet e a Cultura Escrita
Das pequenas tábuas de argila, passando pelo surgimento do papel, ao suporte virtualizado, onde, hoje, nos expressamos, o sistema de símbolos gráficos a que damos o nome de escrita conheceu revoluções que alteraram profundamente a maneira como produzimos e trocamos informações, sentimentos e ideias. Geralmente atrelada aos recursos e condições materiais dos diferentes contextos históricos em que se desenvolveu, a escrita tornou-se protagonista de convulsões sociais, culturais e religiosas numa Europa que ainda não havia compreendido completamente os significados da revolução nas técnicas de impressão iniciada por Gutenberg.
Vira e mexe, a essa democratização sem precedentes da escrita no século XV, comparam-se as mudanças que presenciamos atualmente com a explosão da internet. Estamos no calor do momento. A Wikipedia surgiu anteontem, os blogs ontem e o Twitter, agora há pouco. Apenas os historiadores do futuro terão condições de avaliar, com alguma precisão, o que realmente está nascendo, o que, afinal, está mudando e o que desaparecerá com as constantes revoluções tecnológicas da era digital. Mas, apesar das dificuldades, pensar e indagar o presente nunca deixou de ser fundamental, principalmente se se quiser avaliá-lo criticamente e, mais importante, estabelecer formas de interação positiva com as novidades que se apresentam. Como a cultura escrita está reagindo às diferentes inovações? Como a educação, em parte responsável pelo letramento dos indivíduos, pode enfrentar problemas ou se beneficiar das dádivas digitais?
“É um fenômeno extremamente interessante, as novas variantes linguísticas que vêm sendo criadas na web, por força dos novos gêneros que nela vêm surgindo”, afirma Magda Soares, professora e pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Universidade Estadual de Minas Gerais (UFMG). Soares esclarece que fenômenos de comunicação como blogs e Twitter geram novos gêneros de escrita, mas a chamada norma culta ainda tem lugar no ciberespaço, pois “muitas revistas científicas já circulam apenas na web, a maioria dos jornais tem sua versão web, artigos acadêmicos são publicados na web”. Nessas publicações, espera-se a norma culta, “e os leitores desses gêneros de texto são os que controlam a qualidade deles”, completa. Os novos gêneros surgidos na internet, como o e-mail e as salas de bate papo, têm padrões de adequação linguística diferentes da norma culta. O que não quer dizer, segundo Soares, que haverá mutações radicais na linguagem escrita: “As pessoas, em geral, sabem, em parte intuitivamente, em outra parte por efeito da escolarização, que é preciso adequar a variante linguística ao gênero”, explica.
E quanto à informação que a escrita carrega? Estaria a informação no ciberespaço perdendo qualidade na medida em que aumentam a velocidade e a quantidade em que circula? Para Raquel Recuero, pesquisadora do Centro de Ciências Humanas e da Educação da Universidade Católica de Pelotas, não necessariamente: “Os ruídos de comunicação sempre existiram”, afirma. “Quanto mais informação, mais ruídos vão existir. São consequências diretas da crescente quantidade de informação. Já havia ruído nos jornais e na literatura, antes da internet surgir”, continua. Recuero reconhece que “a quantidade e a velocidade de circulação fazem com que as informações sejam, às vezes, publicadas com menos zelo”, mas chama a atenção para o fato de que há “uma grande interatividade na rede, há possibilidade de todos exercerem sua capacidade crítica, e a abundância de espaços de debate faz com que haja um depuramento da informação”.
Como a cultura escrita está reagindo às diferentes inovações? (L.28-29)
Na frase acima, empregou-se corretamente o acento grave indicativo do fenômeno da crase.
Assinale a alternativa em que isso NÃO tenha ocorrido.