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A biografia de meu pai resume e exemplifica o desdobramento da vida de milhões de imigrantes pobres que chegaram ao Brasil fugindo da miséria em seus países de origem — assim como a da minha mãe, filha de italianos da região do Vêneto, norte da Itália. Sebastião nasceu em Guidoval, uma pequena cidade da Zona da Mata de Minas Gerais, região já decadente em 1928, que conhecera, em menos de meio século, o apogeu e o ocaso da cultura do café. Meu avô faleceu, não se sabe de quê, ainda durante a gravidez de minha avó, que, por sua vez, morreu pouco depois do parto. Órfão e sem parentes, meu pai foi pego para criar por uma família italiana, em Dona Eusébia.
O agregado, figura singular da estrutura social brasileira, crescia como se fosse membro da família, embora arcasse apenas com deveres, nunca usufruindo de quaisquer direitos. Disponível vinte e quatro horas por dia durante todo o ano, trabalhava em troca de cama e comida — comida servida na cozinha e cama posta num quartinho do lado de fora. Além disso, como soldava fortes laços afetivos com a casa, tornava-se de inteira confiança para desempenhar serviços os mais diversos. Assim ocorreu com meu pai: desde cedo ele labutou, inicialmente como pajem das crianças, algumas de sua idade, mais tarde puxando enxada no eito. Quando se casou, aos vinte e dois anos, carregava nos olhos uma gratidão quase cega aos irmãos e irmãs postiços, que sempre nos trataram com educado desprezo e as mãos vazias.
A saúde frágil — teve quase todas as doenças sociais possíveis, de paratifo a tuberculose — não o impediu de sonhar um futuro radioso para os filhos. Com minha mãe, mudou-se para Cataguases, cidade de economia baseada na indústria têxtil, onde, insubmisso à sua maneira, não conseguiu adaptar-se a horários fixos e patrões. A breves períodos como empregado assalariado na construção civil, sucediam-se longas tentativas frustradas de estabelecer-se com negócios próprios, quase sempre empreendimentos modestos e banais.
De acordo com o texto, no Brasil, era comum o tratamento de agregado como se fosse membro da família, embora em uma condição de empregado sem salário.