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Velhos amigos, de Ecléia Bosi
Por que sentimos, ao longo da leitura de Velhos amigos, uma comoção discreta a nos acompanhar por todas as estórias, sendo elas tão diferentes entre si? Será que as estórias mantêm um vínculo de simpatia, como se houvesse uma continuidade secreta que as fizesse compartilhar uma reiterada variação em fuga?
A impressão que temos, após a leitura de Velhos amigos, é que, pelo livro todo, corre uma utopia de civilização, em que a história dos homens se encontraria com o ciclo da natureza, e esta, por sua vez, seria humanizada pela intervenção libertadora dos gestos de cultivo. Assim, as cabaças e abóboras que crescem e se entrelaçam pelo meio das páginas são testemunho de culturas que, do fundo da terra, fizeram-nas germinar e guardaram suas sementes ao longo do tempo, e souberam usar flores e frutos para alimento e adorno e música.
Desse modo, a autora Ecléia Bosi parece tratar as suas estórias, que nem sabemos definir se são contos, se são crônicas, memórias ou reflexões — como se nelas não houvesse arranjo algum, ou artifício, mas uma vizinhança da evocação as fizesse brotar, como se a cultura fosse um crescimento em continuidade com a natureza, e que a máxima felicidade fosse a do homem que consegue escapar do mundo administrado e de todo seu falso progresso. As personagens sonham — o taxista entrevê uma ilha, porto de seus olhos cansados, atrás da fumaça do trânsito; o jardineiro prefere arrancar as ervas daninhas com a mão — instrumento mais refinado que a enxada —, e se cura do veneno de cobra nadando em cachoeiras (ao invés de tomar injeções e remédios); a bola do menino é levada pelas ondas e se assemelha a um planeta azul flutuando na névoa — objeto liberto para a contemplação.
Mas, mesmo pelas estórias de final feliz, perpassam, em Velhos amigos, uma sombra de nostalgia, uma pungência próxima do patético. Bakhtin, no seu trabalho sobre a história do romance, percebeu que os heróis da antiguidade são monumentais, colocados num pedestal, distantes de nós, especialmente na épica e na tragédia. O herói moderno, pelo contrário, é nosso companheiro — com ele nos identificamos, rimos e choramos. Essa proximidade começou na época do romantismo, no século XIX, momento em que os pobres passaram a ser figurantes sérios na literatura.
É dessa maneira que o tom de Velhos amigos chega perto do leitor, que sente continuamente um nó na garganta, como se fizesse parte daquele círculo de personagens, seus parentes e amigos antigos, e participasse do desenlace de suas vidas. O tom narrativo participa da mesma despretensão, despertando a simpatia do leitor para personagens e eventos da experiência comezinha, resgatados por uma espécie de aura não sublime ou heroica e, sim, muito próxima de nós.
Dessa forma, nós leitores, somos levados a descobrir, através de Velhos amigos, “uma brecha para entrar no passado”. Passado que ainda está passando, mantido em fundos de potes de cabaça que, quando abertos, permitem que se inale de repente um sopro, que sorvemos como quem anda distraído pela rua e, só por um breve momento, sente o cheiro suave e penetrante de uma árvore perfumada, e logo continua seu caminho, agora feliz, em devaneio, aberto para outra dimensão do tempo, livre por um instante da coação das tarefas imediatas.
O livro vai abrindo portas no coração da confraria de leitores que, por meio de seu encanto, vão entrando e participando das estórias, despertando em cada um a vontade de narrar. À medida que descobrem (descobrimos) o significado ampliador da memória e da experiência, realizamos o desejo de nos tornarmos todos Velhos amigos.
A resenhista credita a Velhos amigos o mérito de configurar-se como um conjunto de estórias capaz de despertar empatia e emoções nos leitores.