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Para o observador externo, pode parecer pura preguiça. No entanto, o ato de sonhar acordado relaciona-se ao desenvolvimento da autoconsciência e da criatividade, à capacidade de planejamento e de improvisação, à possibilidade de reflexão profunda sobre as experiências cotidianas e ainda ao raciocínio moral. A aparência pode ser de devaneio sem rumo, porém o cérebro pode estar operando um processo neurológico complexo, sofisticado e produtivo. O autor inglês Neil Gaiman, autor de romances, livros e quadrinhos, declarou recentemente, em uma palestra, que o nosso futuro depende de livrarias, da leitura e da capacidade de sonhar acordado. O autor iniciou sua palestra mencionando que a próspera indústria norte-americana de construção de prisões usa como variável para a previsão da demanda (necessidades futuras de celas) o percentual de crianças com dez e onze anos incapazes de ler. Para ele, temos a obrigação de sonhar acordados e usar a imaginação. Essas atividades nos fazem criar mundos alternativos, que nos permitem construir o futuro. No mundo do trabalho, a atividade de sonhar acordado já teve dias melhores. Muitas organizações contemporâneas declaram amor incondicional pela criatividade e pela inovação. Paradoxalmente, continuam a refrear, disciplinar ou expelir seus sonhadores. Eles resistem como podem, sonhando acordados para enfrentar o tédio no trabalho. A Revolução Industrial e a ascensão das linhas de montagem sepultaram a criatividade e exilaram os sonhadores. Faz bem sonhar acordado. In: CartaCapital, 13/11/2013, p. 60 (com adaptações).
O emprego do sinal indicativo de crase em “à capacidade” (R.3-4) e “à possibilidade” (R.4) justifica-se pela regência da forma verbal “relaciona-se” (R.2) e pela presença de artigo definido feminino.