///
O enredo do romance História do Cerco de Lisboa, de José Saramago (1998), gira em torno de um revisor de textos de quem se espera total fidelidade e respeito ao autor. Raimundo Silva, o personagem revisor de Saramago, é, a princípio, um escritor reprimido, que não consegue dedicar-se ao que realmente lhe apetece, e, como tantos outros personagens semelhantes, é um homem solitário e tímido, que ganha (mal) a vida revisando textos que, muitas vezes, despreza, sempre respeitando, entretanto, a posição que lhe cabe na hierarquia do trabalho com as palavras. Um dia, porém, ao revisar um livro histórico, Raimundo Silva resolve ignorar essa hierarquia, além de todas as normas que regem seu monótono ofício, e acrescenta um “não” à linha em que o autor afirma que os cruzados auxiliarão os portugueses a tomar Lisboa. O revisor, a partir desse ato de consciente e extrema interferência, assume, finalmente, seu desejo de reescrever o texto que revisa, e sua vida muda. Aqui, merece destaque o poder praticamente absoluto que é atribuído à figura do autor, no universo do personagem de Saramago, em que, a partir da escritura, é possível se criar e se estabelecer o que é verdade. Para o revisor que conhece seu lugar, o autor, como tal, é infalível. Para Raimundo Silva, entretanto, se o revisor tivesse o poder e o direito de escrever como o autor, poderia mudar a realidade. Assim, dada sua trajetória, o revisor sabe, mais do que ninguém, que, como espaço privilegiado do autor, o original deve ser mantido, o máximo possível, longe do desejo autoral de revisores mal-intencionados.
Rosemary Arrojo. A relação exemplar entre autor e revisor (e outros trabalhadores textuais semelhantes) e o mito de Babel: alguns comentários sobre História do Cerco de Lisboa, de José Saramago. In: D.E.L.T.A, v. 19, número especial, 2003 (com adaptações).
Ainda em relação ao texto apresentado, assinale a opção correta.