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Uma vez, ouvi na televisão um político americano dizer: “É preciso limpar as palavras.” Se bem me lembro, ele falava a respeito de um escândalo que havia ferido injustamente a reputação de alguém. Era como se assinalasse que tínhamos que ter mais cuidado na escolha dos termos que utilizamos, mas chamou-me a atenção que ele se referisse às palavras como objetos que podem estar mais ou menos limpos. Tal afirmativa, na boca de um escritor, seria natural. Mas, dita por um político, soou como algo raro. Claro que, sendo ele um político americano, há uma explicação para isso. A cultura daquele país tem um substrato calvinista, e um dos itens da ética protestante é o confronto entre o limpo e o sujo, o puro e o impuro. Anotei a expressão “limpar as palavras”. Gostei da frase e da intenção. Assim como a gente manda uma roupa para a tinturaria, é preciso mandar limpar as palavras. Como se faz uma faxina na casa, pode-se faxinar o texto. Há até especialistas nisto: o revisor, o copidesque, o redator. Eles pegam o texto alheio e começam a cortar aqui e ali as gorduras, os excessos, as impurezas gramaticais. Também os professores, os linguistas, os filólogos podem entrar nessa categoria, a exemplo dos dicionaristas. Mas como se limpa a palavra? Só uma palavra pode limpar outra. Cada um tem lá sua técnica para limpar as palavras. Lembro uma conhecida que sugeria que, para um jeans bem limpo, era necessário jogar na máquina de lavar roupas também um par de tênis. No fundo, era um pouco a imitação tecnológica do que as lavadeiras sempre fizeram na beira dos rios, batendo as roupas na pedra. Cada escritor coloca dentro de sua máquina de escrever um tênis diferente para clarear a escrita. São matreirices. O bate-enxuga das palavras. O publicitário também sabe o que é isso, o que é sacar a frase de efeito, revirar o texto para que ele tenha a força do slogan, do provérbio, do axioma. Os homens que tratam das leis também pensam nisso. Ficam ali burilando os termos pra evitar ambiguidades e subterfúgios. Às vezes conseguem, às vezes não. A lei deveria ser limpa, transparente. Às vezes é, às vezes, não. Limpar as palavras. Mas há palavra pura? Há algum tempo houve um movimento chamado “poesia pura”, “arte pura”. Existe alguma coisa pura? Há dúvidas. Hoje, que a ecologia está na moda, condena-se a poluição. A despoluição, na verdade, começa pela despoluição no discurso.
No trecho “Há dúvidas” (R.43), o verbo é impessoal e, por isso, não se flexiona.