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Procuremos compreender melhor em que consiste a discriminação, distinguindo as fases por meio das quais ela se desenvolve. Em um primeiro momento, a discriminação se funda em um mero juízo de fato, isto é, na constatação da diversidade entre homem e homem, entre grupo e grupo. Em um juízo de fato deste gênero, não há nada de reprovável: os homens são de fato diferentes entre si. Da constatação de que os homens são desiguais, ainda não decorre um juízo discriminante.
O juízo discriminante necessita de um juízo ulterior, desta vez não mais de fato, mas de valor: ou seja, necessita que, dos dois grupos diversos, um seja considerado bom e o outro mau, ou que um seja considerado civilizado e o outro bárbaro, um superior (em dotes intelectuais, em virtudes morais etc.) e o outro, inferior. Compreende-se muito bem que uma coisa é dizer que dois indivíduos ou grupos são diferentes, tratando-se de uma mera constatação de fato que pode ser sustentada por dados objetivos, outra coisa é dizer que o primeiro é superior ao segundo. Um juízo desse tipo introduz um critério de distinção não mais factual, mas valorativo, que é relativo, historicamente ou mesmo subjetivamente condicionado.
O processo de discriminação se completa em uma terceira fase, que é verdadeiramente decisiva. Para que a discriminação libere todas as suas consequências negativas, não basta que um grupo, com base em um juízo de valor, afirme ser superior ao outro. Pode-se muito bem pensar em um indivíduo que se considere superior a outro, mas não extraia de modo algum desse juízo a consequência de que é seu dever escravizá-lo, explorá-lo ou até mesmo eliminá-lo. Da relação superior-inferior podem derivar tanto a concepção de que o superior tem o dever de ajudar o inferior a alcançar um nível mais alto de bem-estar e civilização, quanto a concepção de que o superior tem o direito de suprimir o inferior. Quando a diversidade leva a este segundo modo de conceber a relação entre superior e inferior é que se pode falar de uma verdadeira discriminação, com todas as aberrações dela decorrentes.
Norberto Bobbio. Elogio da serenidade e outros escritos morais. São Paulo: Ed. UNESP, 2002, p. 108-10 (com adaptações).
Na linha 24, a correção gramatical e o sentido original do texto seriam mantidos caso a vírgula empregada após o vocábulo “fase” fosse suprimida.