///
A questão de uma identidade latino-americana tornou-se não apenas atual, mas premente, sobretudo ao longo do século XX. Sua origem está em uma experiência marcante de contraste e de contradição com a memória do regime colonial, com os projetos nacionais e liberais decorrentes dos processos de autonomia política, com os mecanismos de dependência econômica e financeira e, principalmente, com a pluralidade da composição social de suas populações.
Uma das características do esforço de autodefinição das sociedades latino-americanas desenvolve-se mais particularmente na segunda metade do século, com a grande variedade de ensaios de cunho literário e com os resultados das ciências sociais obtidos por latino-americanos, que passam a desempenhar papel relevante no cenário mundial. A América que vinha sendo dita latina por terceiros quer proclamar-se América e latina por si própria. A simples contraposição com a Europa (em especial com as antigas metrópoles coloniais) ou com a América de língua inglesa tem grandes lacunas. O sentimento generalizado de pertencimento à história da expansão da cultura europeia é necessário, mas não suficiente para consolidar a legitimidade social e cultural da composição e da pluralidade social na América de fala espanhola e portuguesa. E isso mesmo se essas Américas receberam significativa contribuição de correntes migratórias renovadas. Os caminhos percorridos nos Estados Unidos da América (EUA) e no Canadá foram — e são — bem distintos dos que percorrem as Américas latinas.
Assim, são os próprios latino-americanos ou brasileiros que procuram ser latino-americanistas ou brasilianistas, não apenas por sorte de ousadia política, mas por força de abordagem científica da constituição eventual de uma latino-americanidade alçada dos traços de formação social e cultural de suas sociedades. O objetivo de conceber e redigir uma história em que o tom fosse dado por latino-americanos, não em uma espécie de etnocentrismo que substitua outros etnocentrismos, como o europeu ou o norte-americano, mas que sirva de substrato a uma síntese da pluralidade real das Américas Latinas, é uma contribuição relevante para a concepção, a construção e a consolidação de uma identidade macrorregional latino-americana.
O vocábulo “sorte” (R.18) refere-se às venturas advindas da ousadia política.