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O escravo africano, quando capturado pelos traficantes, não perdia só a liberdade, com ela iam-se os vínculos familiares e sociais, assim como os referentes culturais da sua terra. Esse processo de dessocialização que Orlando Patterson chama morte social era acompanhado por outro de despersonalização. Uma vez vendido aos europeus, antes de embarcar ou na sua chegada às colônias, ele era normalmente batizado na religião católica e recebia um nome português. Já no Brasil, devia aprender a falar uma nova língua, e, aos olhos dos senhores, passava a ser uma mercadoria, identificado pelo nome do seu proprietário e pelo nome de nação adscrito pelos traficantes. Ele era também identificado pelo seu preço no mercado, que variava de acordo com a sua idade, sexo, condições físicas e habilidades. Em suma, a sua identidade pessoal era severamente relativizada por outra, gerada e imposta de fora. Em um nível individual ou no convívio com os parceiros de cativeiro, certos traços de identidade pessoal podiam ser mantidos, mas, no cotidiano das relações com a sociedade mais ampla, a nova identidade imposta pela escravatura ia-se mostrando a forma mais operacional de se apresentar aos outros. Foi assim que, aos poucos, as denominações metaétnicas de nação foram assumidas pela população negra (de origem) africana.
Paralelamente à dinâmica de identificação externa exercida pela classe dominante, os africanos e seus descendentes foram desenvolvendo novas formas de solidariedade e identidade coletiva, na medida em que as novas circunstâncias o permitiam. No convívio da senzala e dos grupos de trabalho da cidade, a partir do reconhecimento de semelhanças linguísticas e comportamentais e da identificação de lugares de procedência comuns ou próximos, novos grupos mais amplos foram ganhando uma autoconsciência coletiva. Esse reconhecimento da semelhança com certos indivíduos era reforçado pelo reconhecimento de diferenças com outros. Nesse sentido, cabe lembrar que, a partir de certo momento, os escravos recém-chegados já encontravam em funcionamento redes sociais estruturadas, em que a identidade coletiva de nação era efetivamente operacional e o processo de assimilação dessa nova identidade podia produzir-se com mais rapidez.
O sincretismo religioso baiano, que atingiu seu auge no final do século XIX e primeira metade do século XX, teve como motivação ideológica a reforma dos ritos sociais africanos realizados no Brasil naquela época.