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Desde que nos habituamos a nos sentar à mesa, permitimos que o ato de se alimentar se transformasse em muito mais que um instinto de sobrevivência. Virou desejo. Virou demonstração de amor. Virou sentimento.
Foi natural que a paixão pela comida logo passasse a ser narrada em livros.
À mesa, muitos personagens se apaixonaram, tramaram guerras e banharam seus pensamentos em imponentes taças de vinho.
Em algumas ocasiões, escrever sobre comida se tornou um abrigo.
Eça de Queirós, escritor português que padecia de uma doença do intestino, fazia de suas histórias um artifício para matar o desejo dos alimentos proibidos para ele. É por isso que as deliciosas e completas descrições das iguarias em seus livros dão água na boca.
Em outros momentos, comer se tornou um gatilho da memória.
Para o francês Marcel Proust, o paladar tem a função de invocar o passado. Lygia Fagundes Telles, por sua vez, escreveu que a memória tem um olfato memorável. Quem nunca se perdeu em lembranças ao degustar um pudim de leite da infância ou sentir o cheiro daquela torta de maçã que uma pessoa querida costumava preparar?
A comida retratada em livros também se transformou em pista para conhecer os costumes de uma época.
Machado de Assis mencionava alimentos nacionais para protestar contra a influência parisiense, que invadiu nossa cozinha em meados do século XIX.
Mergulhar em uma história pelo viés da gastronomia pode ser uma viagem e tanto pela vida do escritor, por suas preferências culinárias e pelo pano de fundo social, cultural e histórico de seu tempo.
No primeiro parágrafo do texto, a repetição do termo “virou” tem a função de: