///
Texto I
Sobre a insuficiência do modelo de códigos
Uma boa forma de iniciar uma reflexão sobre os fenômenos pragmáticos é identificar uma simplificação no campo da reflexão sobre a significação na linguagem verbal. Embora os livros didáticos e, por assimilação, a própria escola tenham começado, a partir de um certo crescimento de tradições acadêmicas dedicadas ao estudo de questões discursivas e enunciativas, a incorporar conceitos antes ignorados, a apresentação desses conceitos permanece ainda muito atrelada a uma tradição de ensino taxonômica, que pouco ajuda a refletir sobre os processos de produção de sentido subjacentes ao uso da linguagem. Soma-se a isso a prática de fatiar, de modo estanque, os conteúdos em capítulos, de forma que reflexões que se beneficiariam de certas aproximações são desestimuladas. O resultado, na prática, é que, no que diz respeito à compreensão da linguagem como instrumento de produção de sentido, o aluno termina o ensino médio fortemente condicionado por uma concepção herdada do estruturalismo linguístico, plasmada naquilo que se convencionou chamar de modelo de códigos: Emissor Canal Destinatário (Código) Mensagem (Código)
De acordo com o modelo de códigos, a transmissão de conteúdos ocorre entre dois agentes, um emissor e um destinatário, que compartilham um código comum (uma língua). Segundo esse esquema, o emissor codifica seus pensamentos em uma mensagem formulada com base nas regras de um código, em sinais adequados a determinado canal (o ar, no caso da linguagem falada), por onde essa mensagem percorre até alcançar o destinatário, que, por conhecer o código utilizado, realiza operações de decodificação, de modo a representar para si o pensamento que o emissor pretendeu veicular com a mensagem.
Como se pode notar, no modelo de códigos, o código é um elemento fundamental na explicação para a existência de comunicação entre dois agentes. De acordo com o modelo, na ausência de um código comum, não pode haver comunicação. A falta de um código linguístico comum é o que ocorre entre duas pessoas que não dominam uma mesma língua. Imagine, por exemplo, um chinês que só fala mandarim tentando conversar com um brasileiro que só fala português. Evidentemente, tendo em vista a expectativa que temos como usuários de línguas naturais, acostumados a participar de trocas conversacionais repletas de conteúdos de considerável complexidade, podemos pensar que a comunicação entre duas pessoas hipotéticas estaria impossibilitada. Imagine, no entanto, esses dois indivíduos em uma ilha, sobrevivendo a um naufrágio e dependendo, para sua sobrevivência, de algum grau de entendimento e troca de conteúdos. Parece claro que, apesar de não poderem interagir do mesmo modo como interagiriam falantes de uma mesma língua, esses dois indivíduos seriam capazes de se comunicar em alguma medida.
“por conhecer o código utilizado, realiza operações de decodificação” (2º parágrafo). O trecho destacado encontra-se adequadamente reescrito, mantendo o sentido global da frase, em: