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Tempo de mudanças: entrevista com a antropóloga Paula Sibilia
No livro “O show do eu: A intimidade como espetáculo”, você fala em transformação da subjetividade contemporânea, onde o “eu” é afirmado através do olhar do outro. Quando exatamente o olhar do outro passou a ter peso na construção da construção da identidade do homem?
O olhar do outro sempre foi importante para definir quem somos, mas isso ficou realçado com o advento da “sociedade do espetáculo”, com a proliferação de imagens que atravessam nossas vidas e com todo um conjunto de transformações políticas, econômicas e socioculturais que vêm acontecendo nas últimas décadas. Junto com todas essas mudanças históricas, parece que está se deslocando o eixo em torno do qual construímos o que somos. Não faz muito tempo, esse âmago do “eu” se imaginava invisível e oculto dentro de cada um. Acreditávamos que a nossa essência se hospedava “dentro” de cada indivíduo. Era algo enigmático e oculto, embora considerado mais valioso e verdadeiro que as vãs aparências. Essas crenças ainda permanecem, mas estão perdendo força. Cada vez mais somos julgados pelo que mostramos de nós e pelo que os outros podem ver. Aí cabe tanto o aspecto físico e a imagem pessoal, como o comportamento visível que os demais podem julgar. Não é por acaso que inventamos as redes sociais, os telefones com telas e câmeras, as selfies, por exemplo. Acontece que a verdade sobre o que somos agora irradia do olhar alheio, já não emana mais de “dentro” de cada sujeito. São os outros, aqueles que nos observam, que têm a capacidade de dizer quem é cada um e quanto vale, em detrimento daquela essência interiorizada que, agora, soa um tanto antiquada e com pouca substância ou credibilidade.
As ferramentas tecnológicas são causa ou efeito desta mudança da subjetividade contemporânea?
As mudanças históricas são muito complexas, contêm ingredientes de todo tipo e não é raro que envolvam também contradições, lutas e disputas. Mas as tecnologias são sempre fruto desses movimentos. Não poderia ser de outro modo, pois somos nós, os humanos, que inventamos as ferramentas, elas não caem do céu nem são trazidas por seres de outros planetas. Esses artefatos são resultado de nossos desejos e necessidades, por isso os concebemos, fabricamos e adotamos. Tal é o caso dos celulares, dos computadores e da internet, por exemplo. Inventamos tudo isso porque precisávamos deles para fazer coisas que, antes, não eram sequer imaginadas porque não existia a vontade de fazê-las. Por isso, digo que as tecnologias são consequência de novas formas de vida que vão se gestando aos poucos, embora a popularização desses aparelhos também contribua para reforçar esses hábitos. Inclusive, eles podem vir a inspirar outros desdobramentos, que não tinham sido previstos quando as inventamos.
“Aí cabe tanto o aspecto físico e a imagem pessoal, como o comportamento visível que os demais podem julgar”. A relação estabelecida entre as duas partes da frase é de: