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Envelhecer
Dizem que o coração não envelhece.
Tolice. Envelhece sim e mais depressa do que
a cabeça que não prateou ainda, do que o
corpo que mal acusa a fadiga de por tanto
tempo andar de pé. A singularidade do
coração é que ele envelhece com graça. As
chamas da juventude não o consomem,
apenas o douram e lhe dão sustância, como o
pão e o forno.
Cada ano que sobre ele passa, cada
esperança e dor deixam nele a sua marca. Mas
são marcas bonitas, não são cicatrizes;
quando muito são tatuagens, marinheiros e
havaianas, borboletas, serpentes, âncoras e
bandeiras de vários países dançando
entrelaçados nas paredes do maduro coração.
Por que ter medo da idade quem não
tem medo da morte? A idade é morte de todos
os minutos, sutil e silenciosa, gastando
gentilmente a força do guerreiro para que a
luta do fim não seja bruta demais. Quarenta
anos ou oitenta anos, que adianta? O que ficou
para trás, que importa? Nem o sol nem a lua
deixam riscos no céu, marcando os dias
passados. De cada sol fica apenas a
lembrança; e lembrança só dói fresca. Depois
de curtida é consolo.
Luz dos meus olhos, que palavras digo?
Palavras que não sejam loucas, risíveis ou
melancólicas? Meu Deus, me sinto como uma
tartaruga lírica, abicada à praia, tentando uma
cantiga ao luar. Será que a lua entende? Mas
no fundo também não importa. Porque a
tartaruga entende. E afinal é ela que canta, ou
pensa que canta.
QUEIROZ, Rachel de. Um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.
A autora encerra o texto fazendo