///
Sua excelência, o leitor Os livros vivem fechados, capa contracapa, esmagados na estante, às vezes durante décadas – é preciso arrancá-los de lá e abri-los para ver o que têm dentro. [...] Já o jornal são folhas escancaradas ao mundo, que gritam para ser lidas desde a primeira página. As mãos do texto puxam o leitor pelo colarinho em cada linha, porque tudo é feito diretamente para ele. O jornal do dia sabe que tem vida curta e ofegante e depende desse arisco, indócil, que segura as páginas, amassando-as, dobrando-as, às vezes, indiferente, passando adiante, largando no chão cadernos inteiros, às vezes, recortando com a tesoura alguma coisa que o agrada ou o anúncio classificado. Súbito diz em voz alta, ao ler uma notícia grave: "Que absurdo!", como quem conversa. O jornal se retalha entre dois, três, quatro leitores, cada um com um caderno, já de olho no outro, enquanto bebem café. Nas salas de espera, o jornal é cruelmente dilacerado. Ao contrário do escritor, que se esconde, o cronista vive numa agitada reunião social entre textos – todos falam em voz alta, ao mesmo tempo, disputam ávidos o olhar do leitor, que logo vira a página e silenciamos no papel. Renascemos amanhã.
No trecho “e silenciamos no papel. Renascemos amanhã.”, nas linhas 21 e 22, o autor passa a fazer uso da primeira pessoa do plural, diferentemente do uso da terceira pessoa que fazia anteriormente. Essa mudança na pessoa verbal é feita para indicar que o narrador