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A função da literatura está ligada à complexidade da sua natureza, que explica inclusive o [seu] papel contraditório mas humanizador (talvez humanizador porque contraditório). Analisando-a, podemos distinguir pelo menos três faces: (1) ela é uma construção de objetos autônomos como estrutura e significado; (2) ela é uma forma de expressão, isto é, manifesta emoções e a visão de mundo dos indivíduos e dos grupos; (3) ela é uma forma de conhecimento, inclusive como incorporação difusa e inconsciente. Em geral pensamos que a literatura atua sobre nós devido ao terceiro aspecto, isto é, porque transmite uma espécie de conhecimento, que resulta em aprendizado, como se ela fosse um tipo de instrução. Mas não é assim. O efeito das produções literárias é devido à atuação simultânea dos três aspectos, embora costumemos pensar menos no primeiro, que corresponde à maneira pela qual a mensagem é construída; mas esta maneira é o aspecto, senão mais importante, com certeza crucial, porque é o que decide se uma comunicação é literária ou não [...] Toda obra literária é antes de mais nada uma espécie de objeto construído; e é grande o poder humanizador desta construção, enquanto construção. […] Por isso, um poema hermético, de entendimento difícil, sem nenhuma alusão tangível à realidade do espírito ou do mundo, pode funcionar neste sentido, pelo fato de ser um tipo de ordem, sugerindo um modelo de superação do caos. A produção literária tira as palavras do nada e as dispõe como um todo articulado. Este é o primeiro nível humanizador, ao contrário do que geralmente se pensa. A organização da palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva, primeiro, a se organizar; em seguida, a organizar o mundo. Isto ocorre desde as formas mais simples, como a quadrinha, o provérbio, a história de bichos, que sintetizam a experiência e a reduzem a sugestão, norma, conselho ou simples espetáculo mental.
Os motivos para ler, como para escrever, são muito diversos, e muitas vezes não [são] claros mesmo para os leitores ou escritores mais autoconscientes. Talvez o motivo último para a metáfora, ou seja, para a escrita e a leitura, seja o desejo de ser diferente, de estar em outra parte. Nesta afirmação eu sigo Nietzsche, que nos advertia que aquilo para o que conseguimos encontrar palavras já está morto em nosso coração, de modo que há sempre uma espécie de desprezo no ato de falar. Hamlet concorda com Nietzsche, e os dois talvez tenham estendido o desprezo ao ato de escrever. Mas não lemos para descarregar nossos corações, portanto não há desprezo no ato de ler. As tradições nos dizem que o eu livre e solitário escreve para vencer a mortalidade. Creio que o eu, em sua busca para ser livre e solitário, em última análise lê com um só objetivo: encarar a grandeza. Esse confronto mal disfarça o desejo de juntar-se à grandeza, que é a base da experiência estética outrora chamada de o Sublime: a busca de uma transcendência de limites. Nosso destino comum é a velhice, a doença, a morte, o esquecimento. Nossa esperança comum, tênue mas persistente, é alguma versão de sobrevivência. Encarar a grandeza quando lemos é um processo íntimo e dispendioso, e jamais esteve em grande voga crítica. Agora, mais que nunca, está fora de moda, quando a busca de liberdade e solidão é condenada como politicamente incorreta, egoísta e não adequada à nossa sociedade angustiada. […] Se se acredita que todo o valor atribuído a poemas, peças, romances ou contos é apenas uma mistificação a serviço da classe dominante, então porque se deve ler afinal, em vez de ir servir às desesperadas necessidades das classes exploradas? A ideia de que beneficiamos os humilhados e ofendidos lendo alguém das origens deles, em vez de ler Shakespeare, é uma das mais curiosas ilusões já promovidas por ou em nossas escolas.
Em face das formulações de Harold Bloom, considere as seguintes afirmativas:
1. O conceito de Sublime, tal como enunciado no texto desse autor, remete a um conjunto de categorias estéticas cujas bases ressoam formulações presentes nos estudos sobre a arte desenvolvidos a partir do trabalho de filósofos como Kant e Hegel.
2. A posição sustentada pelo autor quanto à função da leitura do texto literário na sociedade contemporânea pode ser caracterizada como individualista e, como tal, desvinculada de compromissos com as necessidades das “classes exploradas”.
3. O crítico argumenta em defesa de uma democratização do acesso aos grandes textos da literatura universal, como é o caso das obras de Shakespeare, que, segundo ele, poderiam ser de grande valia para a superação das desigualdades sociais.
Assinale a alternativa correta.