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“A Terra pode nos deixar para trás e seguir o seu caminho”
Entrevista com Ailton Krenak
Que humanidade somos hoje?
Somos uma humanidade complexa e diversa. Ela tem aquelas qualidades que nós gostaríamos às vezes que fossem presentes ao nosso redor: a complexidade e a pluralidade. Mas essa humanidade, exatamente por ter uma condição plural, não constitui uma comunidade. Poderia dizer que hoje estamos perplexos, porque nós não conseguimos ter uma unidade de propósito e estamos passando por crises sucessivas. Crise ambiental, climática, econômica. É também uma crise de paradigma.
Em A vida não é útil, tu destacas o fato de o coronavírus adoecer apenas seres humanos. O que isso pode nos dizer?
A Terra seguir seu caminho é uma possibilidade de desafiar a centralidade que o ser humano se pretende. Faz com o que essa centralidade seja posta em questão. É a ideia do Antropoceno [teoria de que as ações humanas mudaram profundamente o funcionamento do planeta e de que isso constituiria uma nova era geológica]. Então, se o pensamento dos seres humanos acerca da vida aqui no planeta ficou tão atomizado ao ponto de nós ameaçarmos as outras existências, a Terra pode nos deixar para trás e seguir o seu caminho. Gaia é esse organismo vivo, inteligente, e que não vai ficar subordinado a uma lógica antropocêntrica. Ela dispensa a gente. Essa compreensão parece uma ideia mágica, romântica, mas muitos cientistas consideram a Teoria de Gaia [a ideia de que a Terra é um organismo vivo] ser real. Inclusive, os eventos por que estamos passando agora são indicativos de que esse organismo está reagindo. Estamos experienciando a febre do planeta.
O organismo de Gaia está com febre porque nós, os humanos, somos os únicos que temos a capacidade de incidir sobre esse organismo de maneira desordenada. E estamos ameaçando outras vidas, outras existências, causando uma febre neste organismo. É muito didático. Não é uma teoria complicada.
Tu contas que a gente “respira e sonha com a Terra”. Com o que sonha a Terra?
O sonho da Terra é uma metamorfose. O que é pedra vira borboleta, o que é pau vira vento, o que é vapor vira chuva, as nuvens despencam em tempestade. Toda essa fantástica movimentação da vida é o sonho da Terra. É a transformação, a metamorfose. Tem um autor que começou a ser divulgado no Brasil agora que se chama Emanuele Coccia. Ele é autor do livro Metamorfose. É um livro que estou considerando uma leitura muito bacana porque ele consegue nos dar um roteiro para entender esse maravilhoso organismo.
O que Metamorfose traz é uma leitura sobre o darwinismo, sobre a evolução, contrária à ideia comum de que o mundo foi criado – a ideia criacionista – e de que os humanos receberam o condomínio do mundo para o predar. Essa é a narrativa ocidental. Mas tem narrativas de outros povos que podem sugerir que nós tivemos diferentes evoluções e origens, que viemos justamente do sonho da Terra. Esse sonho vivo da Terra.
Empresas podem ajudar a escalar a agricultura regenerativa
No início de novembro, líderes mundiais foram ao Egito para a COP27, a cúpula climática anual da ONU (Organização das Nações Unidas). A COP (Conferências das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) é uma oportunidade anual de reunir as principais partes interessadas na luta contra as mudanças climáticas e alinhar as prioridades para o próximo ano. Um dos temas em evidência da COP27, motivo de muitas discussões, foi a expansão da agricultura regenerativa.
Um relatório de 2014 mostra que 24% das emissões globais vêm do uso da terra, a segunda maior fonte de emissões de gases de efeito estufa depois da energia. Então, se vamos frear a mudança climática e manter o mundo dentro de 1,5 °C, devemos evoluir a maneira como cultivamos. A agricultura regenerativa faz isso, concentrando-se na saúde e na fertilidade do solo, sequestrando carbono, melhorando a saúde das reservas hidrográficas, aumentando a biodiversidade e melhorando a qualidade de vida dos produtores que cultivam nossos alimentos.
Em outras palavras, a agricultura regenerativa não apenas reduz as emissões, mas também pode acelerar a transição para um sistema alimentar mais saudável, sustentável e equitativo. E, no entanto, a agricultura regenerativa tem sido amplamente negligenciada quando se trata de negociações climáticas internacionais. Acredito que está na hora de isso mudar. É hora de enfrentar os desafios e explorar soluções que resultem na adoção generalizada dessas práticas potencialmente salvadoras do planeta.
Dito isso, a transição para métodos regenerativos levará tempo. Há muito trabalho a fazer para quebrar as barreiras que impedem a expansão dessas práticas. Em última análise, para que a agricultura regenerativa crie raízes, os produtores precisam de três coisas: apoio econômico, apoio social e cultural e apoio agronômico.
No final das contas, temos conhecimento, recursos e ferramentas. Está na hora de a agricultura regenerativa ocupar o centro do debate sobre o clima. Fazer deste momento um momento de ação, em que há um comprometimento coletivo em adotar essa alavanca crítica para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, fortalecer nosso sistema alimentar global e elevar nossas comunidades. A hora de agir é agora.
Com base nos textos 1, 2, 3 e 4, considere as seguintes afirmativas e assinale a alternativa correta.
I. Há uma relação temática entre os quatro textos em torno da questão ambiental e do papel dos seres humanos na sua proteção.
II. As definições “época da dominação humana” (texto 1) e “teoria de que as ações humanas mudaram profundamente o funcionamento do planeta e de que isso constituiria uma nova era geológica” (texto 3) dizem respeito ao Antropoceno.
III. Os seguintes termos estão em consonância com os textos 1, 2, 3 e 4, respectivamente: “crescimento da população”, “conservação da biodiversidade”, “movimentação da vida” e “sistema alimentar sustentável”.
IV. Os textos pertencem a gêneros textuais diferentes: enquanto os dois primeiros são científicos, os dois últimos enfocam exemplos cotidianos e do senso comum.
V. O texto 2 se distancia tematicamente dos demais textos, pois desconsidera o debate sobre a renovação do ar.