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LINGUISTAS DISCUTEM A NEUTRALIZAÇÃO DO GÊNERO GRAMATICAL
Aldo Bizzocchi (pesquisador USP) e Cristine Gorski Severo (professora UFSC) divergem sobre a necessidade de mudanças na língua portuguesa que possibilitem a imparcialidade no falar
Por Giuliana de Toledo
1. O Colégio Franco-Brasileiro, do Rio de Janeiro, anunciou que adotaria “estratégias gramaticais de neutralização de gênero”, como chamar os estudantes de “querides alunes”. Logo depois, a decisão foi revogada pela escola. Em sua visão, está na hora de as instituições aderirem a medidas assim?
ALDO BIZZOCCHI (AB) Pelo fato de que a própria proposta da linguagem neutra tem inconsistências que são insuperáveis do ponto de vista da estrutura da língua, eu acredito que não é o momento, e que esse momento nunca vai chegar. Ou, se chegar, vai ocorrer espontaneamente, pela própria evolução histórica da língua, não por um decreto ou por uma vontade de quem quer que seja imposta de cima para baixo a todos os falantes.
CRISTINE GORSKI SEVERO (CGS) Não sei se tem como dizer se está na hora ou não, porque cada instituição tem seu movimento, mas acho que é interessante ter uma sensibilidade para como a língua tem sido usada historicamente também como expressão de uma identidade, de um modo de compreender o mundo. Quando você reconhece o uso de uma linguagem inclusiva, como “alunos e alunas”, ou faz uma tentativa de neutralizar o gênero, como em “querides alunes”, você se aproxima dos adolescentes que têm utilizado essas marcas linguísticas.
2. Do ponto de vista linguístico, essa discussão faz sentido? A língua portuguesa é carregada de machismo?
AB Existe esse mito, que circula muito na internet, de que a língua portuguesa é machista. Bom, em primeiro lugar, se nós formos considerar que uma língua que tem gênero masculino e feminino e faz a neutralização dos dois no masculino é machista, então todas as línguas românicas são machistas. Mas isso é falso por várias razões. Essa terminação “o”, que é chamada de gênero masculino, na verdade é o resultado da fusão de duas terminações latinas, a do masculino e a do neutro. O latim tinha masculino, feminino e neutro, mas por um evento fortuito, que foi a evolução fonética, as duas terminações, a do masculino e a do neutro, se fundiram, devido à perda da consoante final. Assim, o masculino é nosso gênero neutro. Além disso, existe uma confusão entre três coisas: sexo biológico, gênero biopsicossocial e gênero gramatical. Não há nenhuma relação obrigatória com a realidade extralinguística, ou seja, com o mundo real.
CGS Desconstruir o masculino genérico é um movimento que tem acontecido não só na língua portuguesa, mas em muitas outras línguas indo-europeias que têm em sua estrutura essa flexão de gênero, que passou a ser entendida como machista. Essa mudança é uma resposta aos movimentos sociais, culturais e identitários relacionados a gênero e sexualidade. É uma relação entre língua e sociedade, entre língua e política, não entre língua e lógica. O que vemos é a língua respondendo à dinâmica social, e esse é o movimento próprio da língua.
3. Uma mudança na língua em favor de uma maior “neutralização” de gênero pode determinar uma mudança em valores machistas de nossa sociedade?
AB Acredito que realmente nossa sociedade precisa amadurecer bastante no sentido de existir mais justiça social, equidade, para que as minorias tenham voz e visibilidade, mas acho que não é por meio de uma mudança de estrutura gramatical que isso vai acontecer. Não é a gramática que está gerando a discriminação desses grupos, então a mudança na gramática, se fosse possível, coisa que não é, não necessariamente seria um instrumento de maior justiça social.
CGS É uma pergunta muito boa: mudar a língua muda a sociedade? É o que a gente precisa pensar também em relação ao politicamente correto. Deixar de usar certos termos e expressões significa que o preconceito deixa de existir? Não, o preconceito acha outros modos de se expressar, mas essa mudança de linguagem, em minha visão, é produto de um movimento social anterior. Para mim, a linguagem está ratificando algo que já está acontecendo, e ela pode, sim, projetar esse avanço, junto com outras iniciativas. Ao usar, você mostra que é simpático à diversidade. Eu, sempre que posso, digo, por exemplo, “bom dia a todas, todos e todes”.
Com base no texto 1 e no trecho a seguir, dele retirado, assinale a alternativa correta de acordo com a norma padrão escrita.
Quando você reconhece o uso de uma linguagem inclusiva, como “alunos e alunas”, ou faz uma tentativa de neutralizar o gênero, como em “querides alunes”, você se aproxima dos adolescentes que têm utilizado essas marcas linguísticas. (linhas 13-15)