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Jamais serei uma mãe perfeita
Quando a cineasta Helen Ramos, 30 anos, engravidou, decidiu criar o canal do YouTube Hel Mother para dividir vídeos sobre o lado real de ser mãe e, assim, apoiar outras mulheres
Me lembro da primeira crise de choro que tive na gravidez. Estava com 12 semanas e tinha acabado de revelar pelo Facebook a novidade. Resolvi levar adiante uma gravidez sem um companheiro, emprego fixo e apoio financeiro, mas estava bem quando fiz o tal post. Ele era bacana, falava desse amor por um grão de arroz com coração, mas fui atingida de forma célere pelos primeiros mísseis da patrulha tradicional.
Meu celular bugou de tanta mensagem de amigos comemorando, falando que me amavam. Queria calcular quantas dessas amizades continuaram. Chuto 10%. No meio das mensagens, tinha a de uma pessoa que eu admirava. Dizia: “Você é louca? Engravidar logo agora, com sua carreira dando certo?” Fiquei sem saber o que responder. Louca? Por que decidi ter um filho?
No mesmo dia, tinha programado ir à casa de uma amiga cuja irmã tinha acabado de ter bebê. Quando cheguei lá, a surpresa: a bebê tinha 3 meses, não era fácil de segurar, chorava, tinha o pescoço mole. Olhando para aquele cenário, me senti embarcando em um trem-fantasma.
Eu, sem mãe, sem companheiro, com irmão morando em outra cidade e pai que desmaiou no pós-operatório do meu siso. Minha ficha caiu. Me despedi, entrei no carro e chorei. Foi a grande estreia do meu choro gestacional, o primeiro episódio de uma temporada de desesperos e medos.
No dia seguinte, chorando de saudade da minha mãe, consegui escutar na memória uma frase dela: “A gente só teme o desconhecido. Estude”. Caí de cabeça no mundo da maternidade, mas ainda assim me faltavam seres humanos para trocar experiências. Certo dia, enquanto eu pesquisava carrinhos de bebê, recebi uma sugestão de uma amiga da minha amiga. Enviei mensagem para aquela jovem mãe e, para minha surpresa e sorte, ela perguntou dos meus planos. Surgiu ali minha primeira amizade desromantizada. Bia não falou que eu precisava de um trocador que combinasse com a cômoda. Ela me jogou a real. Indicou livros, me deu informações e apoio. Perguntou sobre o meu trabalho, como eu ia fazer quando o bebê nascesse. Thamires, outra conhecida, me chamou para um café e me falou sobre pensão, guarda, alimentos gravídicos. Me alertou que, mesmo tendo uma relação “boa” com o pai, era melhor que o juiz assinasse o documento da pensão. Essas mulheres tiveram um papel importante na minha vida. Viraram grandes amigas, e com elas e muitas outras consegui desconstruir um inconsciente coletivo sobre a maternidade que é bem zoado, por sinal. E entendendo o que era real.
Algo importante que aprendi ao desromantizar a maternidade é que meu filho [Caetano, de 3 anos] não é só responsabilidade minha, é do pai, dos familiares, dos amigos. Que eu posso pedir ajuda, e que jamais serei uma mãe perfeita, sou uma mãe possível.
A maternidade tem momentos únicos. Quando meu filho me diz algo emocionante na hora de dormir, eu não estou com uma camisa de seda, e sim com a roupa da academia e sem o cabelo há três dias. Mas ainda assim é demais viver isso. Quando você descobre que muitas mulheres mães e poucos homens pais estão como você, as coisas melhoram. Você não se sente tão só.
Visite sua amiga grávida, fale das coisas boas e difíceis: da rede de apoio que ela precisa, que o companheiro dela tem capacidade de dividir as funções. Mas vai visitar para falar das coisas ruins? Sim, as coisas boas já falam. Quando você desromantiza a maternidade, você salva uma mãe.
No trecho “Ele [o post] era bacana, falava desse amor por um grão de arroz com coração, mas fui atingida de forma célere pelos primeiros mísseis da patrulha tradicional”, a expressão “amor por um grão de arroz com coração” pode ser substituída por: