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“Em uma palavra, a pessoa deixa de existir. Está desconectada. É um cadáver que se move, se deprime e sofre. Não deseja nada nem pensa em nada que não seja morfina”. Eis o retrato da dependência ao mais famoso princípio ativo do ópio na pena do escritor e médico russo Mikhail Bulgákov, (1891-1940). Em um conto de 1917, ele já alertava para o outro lado de um medicamento que revolucionou o tratamento da dor: quando mal administrado, pode viciar. Então imaginemos o que pode acontecer diante de uma molécula 100 vezes mais potente que a morfina. É o fentanil, um analgésico e anestésico que, fora dos domínios médicos, encabeça uma crise de saúde pública nos Estados Unidos e preocupa especialistas em outros países, inclusive o Brasil.
O alarme ecoou no país depois de a Polícia Federal apreender lotes irregulares de fentanil nos estados de São Paulo e Espírito Santo em fevereiro. Em abril, duas novas levas foram descobertas no Amazonas. Essas movimentações vêm ao encontro de uma análise de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre o crescimento na demanda por opioides sintéticos (dentro e fora das farmácias) e a necessidade de estabelecer maior vigilância e controle sobre drogas que hoje são manufaturadas por laboratórios clandestinos e vendidas pelo narcotráfico. [...]
A situação ganha contornos sombrios quando se tem em vista que, atualmente, no Brasil e em muitos outros países, outras drogas, como cocaína e canabinoides sintéticos têm sido batizadas com fentanil. “Há um grupo de pessoas que as adquirem sem saber e nem imaginam que estão usando opioide, o que dificulta até na hora de socorrê-las”, relata o médico João Maurício Castaldelli-Maia, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. Com o fentanil vendido às escuras, a procura e o consumo dos opioides de abuso retornaram às ruas e às mãos do narcotráfico. E é nessa direção o alerta da Fiocruz. “É crucial que tenhamos um sistema de vigilância toxicológica melhor, inclusive com o fornecimento de exames para essa finalidade a hospitais. Do contrário, podemos seguir no escuro e reagir de forma tardia”, diz Castaldelli-Maia.
Outro efeito colateral da epidemia dos opioides é que a desinformação e o preconceito acabam punindo quem realmente precisa dos remédios controlados para analgesia. “A crise atual ainda é mal interpretada e, tanto nos EUA como no Brasil, existem pacientes com dor e critérios de indicação sem tratamento ou com subdoses desses medicamentos”, diz Neves, que coordenou duas mesas de discussão sobre a classe farmacológica no recém-ocorrido Congresso Brasileiro da Dor. É preciso, portanto, distinguir o uso médico supervisionado do uso recreativo e compulsivo, sob pena de pessoas com dores crônicas e excruciantes deixarem de receber o devido alívio a seu martírio. [...] (Adaptado: SPONCHIATO, Diogo. O ópio do povo. Revista Veja. Edição 2843, 31 de maio de 2023, p. 64-67)
Analise as proposições a partir do texto e relacione as colunas.
(1) fato
(2) opinião
( ) A substância Fentanil é um analgésico e anestésico 100 vezes mais potente que a morfina.
( ) A crise atual dos opioides é mal interpretada.
( ) A Polícia Federal apreendeu lotes irregulares de Fentanil, nos Estados de São Paulo e no Espírito Santo.
( ) Drogas como cocaína e canabinoides têm sido batizadas com fentanil.
Assinale a resposta correta.