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VER, GUARDAR, LEMBRAR
Descobertas sobre a nossa memória visual, ferramenta essencial à sobrevivência, mostram como o ser humano é capaz de reter imagens no cérebro.
Nos primórdios da história, um tempo de linguagem pouco desenvolvida e escassa troca de informações, os hominídeos, ancestrais dos humanos, tinham a memória como grande aliada para refazer as rotas que levavam às fontes de água, aos pés de frutas sem teor tóxico e às cavernas que ofereciam maior segurança. Protegida por essa primitiva capacidade de armazenar um vasto conjunto de imagens ao mesmo tempo, a espécie foi prosperando e evoluindo. Sem esse potente HD mental, a revolução agrícola que marcou a passagem da vida nômade para uma existência sedentária, provavelmente não teria se desenrolado como relatam hoje os livros de escola. Pois foi a associação entre as formas das plantas e seu período de plantio e colheita – tudo visualmente memorizado - que serviu de base para a reviravolta que moldaria os destinos da humanidade.
Nesse amplo campo que não para de ser investigado pela ciência, uma recente descoberta reforça o que outras vinham sinalizando: a memória visual humana, já identificada em tão longínqua era, é muito superior ao que se imaginava. Depois de aplicar uma batelada de testes cognitivos em um grupo de centenas de pessoas e observar seu cérebro em ação por meio de avançados aparelhos, pesquisadores do Brigham and Women’s Hospital, prestigiado centro de estudos sobre psicologia e neurologia nos Estados Unidos, mapearam a frenética absorção de estímulos visuais – um processo que põe para trabalhar as principais regiões da mente, entre elas o córtex pré-frontal, local de registro instantâneo daquilo que se vê, e o hipocampo, que consolida a memória de longo prazo.
Ao fim do extenso levantamento, eis que os cientistas chegaram à conclusão de que os indivíduos têm o poder de guardar o triplo de dados visuais do que costumava aparecer em aferições semelhantes. [...]O que está em jogo são lembranças de naturezas variadas, que enlaçam tempo e espaço – da localização do carro em um estacionamento apinhado ao trajeto para certo destino, do lugar onde repousa um produto no mercado a fragmentos comoventes da infância. “Quanto mais feliz o momento, mais ele tende a ficar armazenado, já que o cérebro entende sua relevância, ao mesmo tempo que, como mecanismo de defesa, pode apagar detalhes de episódios traumáticos”, explica o neurocientista Fabiano Agrela.
A visão representa 80% de tudo o que os cinco sentidos captam juntos. Ela é permanentemente bombardeada de informações, algumas logo descartadas. O excesso de estímulos no entorno dos habitantes desta era moderna é um desafio e tanto para o cérebro, em sua constante função de separar o que vale guardar. É também, surpreendente, uma vantagem para a memória visual, segundo aponta o estudo americano. Ele constata que, diante de um cenário superlotado de informações, a mente humana se sai muito bem, memorizando em questão de segundos uma quantidade notável de imagens, sobretudo quando não faz esforço para reter o que vê. Curiosamente quanto mais intenso é o empenho para registrar uma determinada situação, pior será o desempenho dos neurônios unidos na teia que desemboca na memória. [...] Com os avanços da tecnologia, foi possível identificar o gene que, no curso da história, contribuiu para o gradativo aumento do tamanho do cérebro, aprimorando-se assim habilidades cognitivas e a própria memória – ferramenta vital para a sobrevivência. (BARROS, Duda Monteiro de.; SILVA, Gustavo. Veja edição 2835, n. 13, 5 de abril de 2023, p.66-67)
“Sem esse potente HD mental, a revolução agrícola que marcou a passagem da vida nômade para uma existência sedentária, provavelmente não teria se desenrolado como relatam hoje os livros de escola.”
A expressão “potente HD mental”, no texto, refere-se à/a