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Foi na década de 90, frente à decadência dos espaços públicos e supostamente inspirado pela teoria das janelas quebradas, que surgiu um conceito de arquitetura e urbanismo chamado arquitetura hostil. Alegando-se proteção do bem público contra a marginalidade e a criminalidade, passou a ser comum a instalação de formas de inibir certos usos do espaço ou comportamentos da população em locais públicos. Esses procedimentos opressivos de controle social podem passar despercebidos a olhares de transeuntes ou ser interpretados como mero detalhe de design, mas, na verdade, são componentes colocados com o fim de que cidadãos julgados como problemáticos ao ambiente não permaneçam no local nem o usem de uma forma considerada inadequada.
A higienização social em locais públicos é feita por meio da colocação de pedras pontiagudas, da instalação de espelhos d’água sob viadutos, da plantação de vegetação com espinhos em floreiras e da introdução de espetos metálicos em soleiras ou em vitrines localizadas no nível da calçada, por exemplo. Em praças públicas, são colocados dispositivos “anti-skate” em bancos e floreiras, regadores automáticos, além de bancos públicos inclinados, estreitos ou com apoio de braço entre os assentos, com a finalidade de não permitir que pessoas deitem sobre eles. Esses detalhes estão na contramão do que se entende como sustentabilidade social.
Para Bauman, a praça, enquanto espaço público, se estabelece como local favorável para a relação da vida social entendida no sentido da cidade. Nas palavras do autor, “é nos locais públicos que a vida urbana e tudo aquilo que a distingue das outras formas de convivência humana atingem sua mais completa expressão, com alegrias, dores, esperanças e presentimentos que lhe são característicos”.
Os grupos entendidos como inimigos da ordem pública, alvos desse processo excludente, são principalmente os skatistas e a população em situação de rua. Esses grupos, entretanto, não são os únicos atingidos pelas estratégias de dispersão encontradas na arquitetura hostil.
O intuito de desencorajar a utilização dos equipamentos públicos por parte de certos grupos sociais, em nome da segurança e da limpeza, acaba por desencorajar a apropriação de todos, uma vez que os locais tornam-se pouco frequentados e ausentes de mobiliário urbano que incentive a permanência da população. Nesse sentido, a estratégia, em vez de reduzir a criminalidade, acaba por reforçá-la.
Está implícita no texto a ideia de que as concepções de Bauman vão ao encontro do que se entende por sustentabilidade social.