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Há muito tempo, quando eu me preparava para tirar a carteira de motorista, o instrutor que me exercitava, incompreensivelmente, num jipe de alavancas duríssimas, fazia-me constantes recomendações, que revelavam as suas tendências filosóficas.
Assim, como eu lhe perguntasse, um dia, por que me exercitava naquele veículo obsoleto que eu jamais pretendia dirigir, respondeu-me que aquilo me obrigava a compreender melhor o mecanismo do carro e, depois daquelas duras provas, eu sentiria macias como cetim todas as outras alavancas: era preciso padecer com aquela cruel disciplina, mas as compensações logo se fariam evidentes — o que fez com que eu passasse a sentir aquele adestramento mecânico como uma nova espécie de exercício espiritual. E conformei-me.
Conversa vai, conversa vem, advertiu-me o filosófico instrutor sobre o uso moderado da buzina, a qual, segundo ele, não servia para quase nada; era uma espécie de descarga nervosa do motorista em apuros ou uma forma de exibição vaidosa, principalmente essas (que ele abominava) com várias vozes, que pretendem formar uma melodia e servem apenas para produzir uma irritação auditiva (o instrutor, além de filosófico, era musical).
Como eu lhe falasse a respeito de marcas de automóveis, deu-me uma série de conselhos, que até pensei em compendiar, mas o tempo passou e muitas de suas palavras se perderam.
Não me esqueci, porém, das suas principais observações. Disse-me que eu não devia comprar um carro muito grande, o que só me daria atrapalhações para arranjar local de estacionamento e teria um ar insolente, que ele considerava em desacordo com a minha pessoa. Aconselhava-me, pois, um carro de bom tamanho, sóbrio, sem nenhum exagero de cor ou feitio.
Depois, advertiu-me sobre as boas maneiras, de que a maioria dos motoristas se esquece. Há uma ética na direção de veículo que — dizia-me ele — se confunde com a própria conduta humana.
Chamava-me atenção para os carros que íamos encontrando: conhecia-se o bom motorista pelo estado de conservação de seu veículo, pela segurança de sua direção, pelo seu comportamento: não querer ser obstinadamente o primeiro, não forçar os colegas que vão em determinada marcha, não andar em velocidade proibida, não andar em linha sinuosa, não deixar de diminuir a marcha nas curvas, não avançar os sinais, respeitar as vias preferenciais, observando o aviso das esquinas...
Um dia, fez-me esta comparação memorável: “Dirigir um automóvel é como dirigir um país: não é preciso correr, nem buzinar, nem querer fazer coisas impossíveis. Os motoristas têm os seus regulamentos, como os países têm as suas leis. Se todos respeitarem os regulamentos, não há colisões, atropelamentos, desastres. Mas, em geral, as pessoas aprendem a pôr o carro em movimento, metem o pé no acelerador, saem por aí como loucas e vão parar na delegacia ou no necrotério. É como no governo”.
E como eu me queixasse dos calos que já tinha na mão, de lidar com aquele jipe duríssimo, consolou-me dizendo que não era esforço perdido, que para bem viver é preciso bem sofrer.
E eu pensei comigo que era um sábio, aquele modesto instrutor.
Cecília Meireles. Ainda sobre automóveis. 1964.
Internet: <www1.folha.uol.com.br> (com adaptações).
A palavra “abominava” (linha 21) está empregada no texto com o mesmo sentido de