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O congresso anual da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (Esmo) apresentou bons resultados de pesquisas para alguns dos mais de 100 tipos de tumores hematológicos e sólidos, caracterizados pela disseminação excessiva de células defeituosas no organismo.
Em uma semana de encontros virtuais, foram apresentadas pesquisas nas fases II e III, ou seja, em estágios próximos da aprovação de agências reguladoras. Os estudos com maior destaque entre a comunidade médica foram aqueles que demonstraram como a combinação de drogas preexistentes — combinadas entre si ou conjugadas a técnicas já bem estabelecidas, como radioterapia —, levou a um aumento da sobrevida de pacientes com doença localizada ou metastática, quando o câncer invade outros órgãos além do primário.
“O estudo mais importante da Esmo foi o que mostrou que a imunoterapia, quando associada à quimioterapia e a drogas antiangiogênicas, aumenta a sobrevida de pacientes de câncer de colo uterino”, aponta o oncologista Fernando Maluf, do Instituto Vencer o Câncer e dos hospitais Albert Einstein e Beneficência Portuguesa, em São Paulo. “No passado, o tratamento era quimioterapia e antiangiogênicos, mas essa pesquisa com 617 pacientes mostrou que a adição de um anticorpo chamado pembrolizumab reduziu o risco de morte em 36%”, afirma o médico.
O uso de anticorpos — a chamada imunoterapia — revolucionou o tratamento do câncer na última década e, apesar de não ser indicado para todas as formas da doença, tem aumentado a qualidade e a expectativa de vida dos pacientes. O estudo citado por Maluf, o Keynote-826, demonstrou que a adição de um anticorpo ao tratamento de primeira linha aumentou em oito meses a sobrevida de mulheres com tumor oncológico cervical recorrente, persistente ou metastático. O câncer cervical é um problema global, com mais de 600 mil novos casos e aproximadamente 340 mil óbitos registrados no ano de 2020.
O estudo dividiu aleatoriamente 617 mulheres para receber a imunoterapia (pembrolizumab) ou placebo. Ambos os grupos também fizeram quimioterapia. Adicionar o imunoterápico ao regime reduziu o risco de morte em 33% e diminuiu a probabilidade de progressão da doença em 36%. “Os dados são tão sólidos em termos de incremento na sobrevida global que essa combinação deve ser considerada o novo padrão de tratamento para mulheres com câncer cervical persistente, recorrente ou metastático”, avalia o oncologista da Universidade de Navarra Antonio González-Martín, não envolvido com a pesquisa.
Embora pesquisas sobre tratamento de pacientes com câncer sejam o foco do maior congresso de oncologia clínica da Europa, um dos destaques do evento, segundo especialistas, foi uma pesquisa que demonstrou a eficácia da vacina contra covid-19 em pacientes com câncer. Havia uma preocupação de que, devido aos medicamentos, que baixam a imunidade, as substâncias não fossem tão efetivas. Porém, a produção de anticorpos neutralizantes — aqueles capazes de impedir a replicação do vírus — foi tão abundante nessas pessoas quanto nas que não estão sob tratamento de câncer.
O estudo mostrou que as pessoas com câncer têm uma resposta imune protetora de acordo com o que se espera da vacina, sem passar por efeitos colaterais diferentes dos que a população em geral enfrenta. Outro estudo, também apresentado no congresso, mostrou, contudo, que a proteção diminui mais cedo, sugerindo a prioridade desse público para a aplicação de uma dose de reforço da vacina.
De acordo com pesquisa apresentada no congresso mencionado no texto, não há diferença entre os efeitos colaterais da vacina contra a covid-19 nos pacientes com câncer e na população em geral.