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Manda quem pode, obedece quem tem juízo — ou teve a capacidade de pensar embotada. Em minha adolescência, um livro disputado na biblioteca da escola era A droga da obediência, de Pedro Bandeira. O maligno Doutor Q. I. inventa uma substância que, ingerida, deixa a pessoa totalmente incapaz de desobedecer às suas ordens. Uma turma de amigos começa a investigar a estranha robotização de seus colegas e desvenda o plano; o herói é um estudante que incrivelmente desobedece ao vilão e o confronta: “Eu só entendo que a minha capacidade de criticar tudo o que ouço e vejo e a minha capacidade de contestar tudo o que descubro de errado é que fazem de mim um ser humano! E a minha capacidade de desobedecer que faz de mim um homem!”. Sem dúvida, a obediência tem papel importante na vida social. Uma mãe, ao dar ordens ao filho, espera obediência; o chefe de uma seção, ao ordenar algo a um subordinado, quer obediência. Em regra, desejamos que os outros cumpram os seus deveres. Por exemplo, é crucial que um controlador de voo obedeça à risca aos protocolos, a fim de evitar desastres aéreos. Por outro lado, nem sempre a obediência é uma virtude, em quaisquer circunstâncias e a despeito do conteúdo envolvido na ordem a ser executada. Um dos problemas sempre apontados é que a obediência, no fundo, é menos uma decisão individual que uma estruturação da vida em sociedade. A disposição a obedecer aos superiores faz parte da normalidade da vida, ao passo que o questionamento da ordem recebida implica uma espécie de quebra da ordem natural das coisas, das expectativas que os outros fazem a nosso respeito. Nesse sentido, obedecer é muito mais fácil que desobedecer: é só dar livre curso ao que de nós se espera, sem pensar no assunto. Refletir sobre até que ponto nós, ao executarmos uma ordem abjeta, podemos nos tornar extensão da malignidade de nosso superior exige muito trabalho do pensamento — e por isso a desobediência costuma ser rara. Decerto não existe uma droga da obediência. Ainda assim, essa estrutura da vida social não é menos ambígua que o próprio termo “droga”, que pode designar tanto um bom remédio (a vida cotidiana precisa de obediência) quanto um veneno (às vezes a obediência cega é uma doença).
De acordo com o texto, a desobediência é rara porque as pessoas temem ser mal vistas se desobedecerem às ordens de um superior.