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Embora legitimamente brasileira, a língua portuguesa não nasceu aqui, deste lado do Atlântico; veio de longe, na bagagem de muitos e diversos viajantes.
Seu avanço, seu desenvolvimento e sua consolidação em território brasileiro são fruto de uma construção coletiva na qual diversos protagonistas tiveram papel de destaque e outros tantos foram silenciados.
Esse silenciamento deixou a falsa impressão de que a língua portuguesa falada no Brasil era uma simples evolução biológica do português europeu.
A estrutura das relações sociais que, ao longo do tempo, legitimaram a dominação de determinados grupos sobre outros em nosso território autorizou hierarquizações linguísticas tendenciosas, que dissimularam as evidências de que a língua portuguesa falada no Brasil já não é a mesma que se fala em Portugal.
E não falamos mais como lá falam os portugueses, porque a nossa língua aqui do Brasil há muito incorporou, via contato linguístico, inúmeros elementos de línguas e dialetos indígenas e africanos diversos.
Nenhum sistema linguístico é homogêneo e unitário. E, no caso brasileiro, essa homogeneidade seria quase impossível, haja vista a formação multilíngue de nossa sociedade e cultura.
A população colonial e imperial brasileira foi, em grande parte, bilíngue. Nos anos 500, 600 e 700, as línguas francas eram amplamente utilizadas pelas comunidades subalternizadas e até mesmo por alguns segmentos da sociedade dominante.
Nos dois primeiros séculos de nossa colonização, os jesuítas sistematizaram alguns falares regionais, dando origem a uma língua geral, amplamente adotada pelos colonos em situações reais de uso.
Essa “homogeneização” linguística promovida pelos jesuítas é a primeira tentativa de se estabelecer entre nós uma língua nacional, e isso foi em parte facilitado pela dificuldade que muitos tinham em falar o português “oficial”.
Com o predomínio da língua geral, no entanto, as elites se sentiram preteridas e logo se iniciou uma campanha para a erradicação das línguas nativas e a imposição do português como língua oficial do Brasil.
Do ponto de vista social e político, a medida teve grande impacto. Em termos práticos, no entanto, pouco efeito teve, uma vez que, até meados do século XVIII, em diversas regiões do Brasil, ainda se usava a língua geral.
Essa imposição de um “idioma-padrão” como única língua legítima e oficial contribuiu para a negação de nosso pluralismo linguístico e para o crescimento do preconceito com relação à pluralidade e à diversidade características de nossa “língua brasileira”.
Abrahão Costa de Freitas. Nossa língua brasileira. In: Conhecimento Prático Língua Portuguesa e Literatura, ano 8, ed. 83, Editora Escala, 2020 (com adaptações).
Segundo as ideias do texto, a língua portuguesa que é falada no Brasil