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Mais de metade da população mundial já vive em cidades, e a urbanização acelerada e desordenada tem consequências ruins: emissões de gases estufa, poluição, problemas de tráfego, má qualidade do ar e da água e violência. A adaptação das cidades a um modelo sustentável pode ser a alavanca de um processo de desenvolvimento local de qualidade, que mobiliza investimentos, gera empregos e renda e bem-estar social.
Para alcançar um novo modelo de desenvolvimento local, é preciso repensar as cidades. O sistema de mobilidade, por exemplo, deve ser redefinido, restringindo-se o espaço dos carros. A reestruturação da mobilidade urbana permite a construção de calçadas mais largas, mais praças, áreas de lazer e esportes e mais ciclovias, com maior segurança. As bicicletas podem ser o principal meio de transporte para pequenas e médias distâncias.
Reprogramar os bairros, tornando-os menores e mais autossuficientes, possibilita que as pessoas encontrem praticamente todos os serviços e mercadorias a distâncias que podem ser percorridas a pé ou de bicicleta. Linhas circulares locais de bonde podem atender os moradores nas distâncias mais longas e aqueles com dificuldade de locomoção. A descentralização das atividades profissionais e serviços cria vários centros, de forma que muitas pessoas passem a trabalhar perto de onde moram.
Adaptar as cidades à mudança climática, eliminando ou minimizando o risco de desastres por deslizamentos, enchentes, elevação do nível do mar, ventanias fortes e tornados, é fundamental para a sustentabilidade. Matas ciliares e áreas de risco livres de construções e reflorestadas ou recompostas, além de reduzirem os riscos de desastres, contribuem para alterar o microclima. Disseminar a cobertura arbórea nas ruas, adotar telhados brancos, verdes ou com placas solares elimina as ilhas de calor. Estudos recentes mostram, por exemplo, que placas solares nos telhados de casas e prédios para a geração de eletricidade refrescam essas construções no verão e oferecem um sistema limpo e eficiente de aquecimento no inverno.
Hortas urbanas, quase todas orgânicas, estão sendo implantadas, com sucesso, em bairros e condomínios de várias cidades, oferecendo localmente verduras, legumes e frutas mais frescas, com mais qualidade e sem o custo econômico e ambiental de transporte. A compostagem feita nos locais auxilia no processamento do lixo e na produção de adubo. À medida que os resíduos vegetais e animais provenham predominantemente de produção agrícola sustentável, sem hormônios e aditivos químicos, o adubo vai se tornando mais orgânico e mais saudável.
Essas cidades com vários centros se estruturam como sistemas altamente integrados, redes de unidades autossuficientes que se assemelham a pequenas cidades e, por isso, são mais administráveis, mais seguras e mais sustentáveis. Essa tendência, crescente nos Estados Unidos da América, começa a chegar à Europa e ao Canadá.
A reprogramação das cidades pode ser vista como custo – quando é malfeita, envolve corrupção, não mobiliza os cidadãos e empresas – ou como oportunidade de desenvolvimento local – quando todos se mobilizam para repensar, redesenhar, reformar e reconstruir a cidade onde moram.
Entende-se da leitura do texto que a corrupção é o maior entrave para a adoção de um modelo sustentável de desenvolvimento nas cidades brasileiras.