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Estar bela, malhada, sentir-se bem consigo mesma; não ter gordurinhas sobrando; ter um corpo rígido, cabelos e pele impecáveis; ser admirada por sua beleza ou por seu corpo em forma; ter um corpo perfeito; encaixar-se nos padrões de beleza massificados; cultuar o corpo, desejá-lo belo, mas, ao mesmo tempo, malhá-lo; submetê-lo a esforços físicos para que ele desabroche em sua melhor forma. Essas falas, todas nativas, apontam para um processo central das últimas décadas, surgido a partir dos anos 1980, que é o culto ao corpo.
Embora seja quase impossível estabelecer, com certeza, quando as expressões “culto ao corpo” e “cultura do corpo” apareceram pela primeira vez, numerosos antropólogos, sociólogos e historiadores vêm se utilizando desses termos para designar um comportamento no qual o corpo figura como elemento central e definidor de identidades. Mais do que ser apenas um meio, o corpo transforma-se no próprio fim; há um culto ao corpo que ganha, cada vez mais, importância na vida social. Cuida-se do corpo, constrói-se o corpo, e é nesse sentido que se pode falar de um culto ao corpo como sendo uma das marcas desse hedonismo.
O corpo, bem como o trabalho muscular, está em toda parte. Foi-se o tempo em que ele estava restrito aos estádios e ringues de luta; hoje ele aparece, a todo instante, nas revistas de beleza e estética, nas telas de cinema, na televisão e, principalmente, nas ruas. Entre a multidão de passantes, os fisiculturistas destacam-se por sua forma de andar: braços afastados, peito abaulado, rigidez. O corpo do fisiculturista pretende tirar todo o benefício do peso no campo do olhar, saturá-lo de massa muscular, impor-se no olhar alheio. O músculo marca. Ele é um dos modos privilegiados de visibilidade do corpo no anonimato urbano das fisionomias.
Entre as mulheres, é fácil identificar quem é ou não malhada pelo modo imponente como elas andam, pelas roupas mais justas e que evidenciam os contornos e por decotes, fendas, ombros à mostra, além do olhar, normalmente sedutor e seguro, bem como pela imponência da postura.
O desejo desse corpo feminino magro e definido e a cultura visual que irá se desenvolver a partir dele é muito antigo, mas explodiu nos EUA, definitivamente, nos anos 80 do século passado. Nessa época, ocorreu um desenvolvimento considerável do mercado do corpo magro e musculoso e do consumo de bens e serviços ligados à sua manutenção, além de todo um aparato da mídia que nos reforça o tempo todo como esse corpo é desejável e necessário. No Brasil, o fenômeno do culto ao corpo explodiu no início dos anos 1990.
No terceiro parágrafo do texto, todas as ocorrências do vocábulo “ele”/“Ele” retomam imediatamente o termo “O corpo” (linha 23).