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Costuma-se descrever a história da era moderna como uma luta entre ciência e religião. Na teoria, tanto a ciência como a religião estão interessadas acima de tudo na verdade, porém, como cada uma sustenta uma verdade diferente, estariam fadadas a se chocar. De fato, nem a ciência nem a religião se importam muito com a verdade, daí a facilidade com que podem entrar em acordo, coexistir e até mesmo cooperar uma com a outra.
A religião está interessada acima de tudo em ordem. Tem como objetivo criar e manter uma estrutura social. A ciência está interessada acima de tudo no poder. Por meio da pesquisa, tem como objetivo adquirir o poder de curar doenças, fazer guerras e produzir alimento. Como indivíduos, cientistas e sacerdotes podem atribuir imensa importância à verdade, mas, como instituições coletivas, a ciência e a religião preferem respectivamente ordem e poder acima da verdade. Por isso elas são boas companheiras. A busca inabalável da verdade é uma jornada espiritual, que raramente pode ficar confinada aos estamentos religiosos ou científicos.
Diante disso, seria muito mais correto considerar a história moderna como o processo de formulação de um acordo entre a ciência e uma religião específica – ou seja, o humanismo. A sociedade moderna acredita em dogmas humanistas e usa a ciência não para poder questioná-los, e sim, ao contrário, para implementá-los. No século XXI, é improvável que os dogmas humanistas sejam substituídos por teorias puramente científicas. No entanto, a aliança que conecta ciência e humanismo pode muito bem desmoronar e dar lugar a um tipo muito diferente de trato, entre a ciência e alguma nova religião pós-humanista.
Yuval Noah Harari (trad. Paulo Geiger). Homo Deus: uma breve história do amanhã. 1.ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 205 (com adaptações).
O texto consiste em uma narrativa de fatos históricos que comprovam a cooperação entre ciência e religião em torno de uma verdade comum.