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Pronomes
Antes de apresentar o Carlinhos para a turma, Carolina pediu: — Me faz um favor? — O quê? — Você não vai ficar chateado? — O que é? — Não fala tão certo. — Como assim? — Você fala certo demais. Fica meio esquisito. — Por quê? — É que a turma repara. Sei lá, parece… — Soberba? — Olha aí, “soberba”. Se você falar “soberba”, ninguém vai saber o que é. Não fala “soberba”. Nem “todavia”. Nem “outrossim”. E cuidado com os pronomes. — Os pronomes? Não posso usá-los corretamente? — Está vendo? Usar eles. Usar eles! O Carlinhos ficou tão chateado que, junto com a turma, não falou nem certo nem errado. Não falou nada. Até comentaram: — Ó, Carol, teu namorado é mudo? Ele ia dizer “Não, é que, falando, sentir-me-ia vexado”, mas se conteve a tempo. Depois, quando estavam sozinhos, a Carolina agradeceu, com aquela voz que ele gostava. — Comigo você pode botar os pronomes onde quiser, Carlinhos. Aquela voz de cobertura de caramelo.
Luis Fernando Verissimo. Contos de verão. In: O Estado de S. Paulo, Caderno 2, Cultura, p. D2, jan./2000.
Nas linhas de 12 a 14, Carolina pede que Carlinhos não empregue certos vocábulos da língua portuguesa porque esses são considerados como arcaicos pela gramática normativa da língua.