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Quem é autônomo é livre, capaz e competente para realizar alguma atividade. Costuma-se dizer que o indivíduo ganha autonomia quando consegue cumprir certas tarefas sem a ajuda do outro. Talvez, por isso, uma palavra de imediato relacionada ao conceito seja independência. Contudo, a ideia de independência expressa apenas um dos lados da questão. O outro se refere à necessidade de pertencer, de saber conviver e compartilhar. Assim, a pessoa autônoma é livre por ser capaz de agir por si mesma e, ao mesmo tempo, responsável porque age como parte de um grupo. Por exemplo, um indivíduo que não sabe ler depende de um outro letrado para ter contato com o conteúdo dos livros ou de qualquer material escrito. Na medida em que ele se alfabetiza, adquire conhecimentos suficientes para ler e torna-se independente de um leitor externo. Ser autônomo se torna possível por um jogo de interdependências, ou interacionismo, segundo Piaget. De um lado, existem aspectos externos ao sujeito: o ambiente, as pessoas, o livro. De outro, aspectos internos, como as ferramentas que o habilitam: os conhecimentos prévios, as condições orgânicas. Um terceiro ponto é o comportamento: aquilo que o indivíduo realiza ou pensa e que ninguém pode fazer por ele. Vale dizer que cada pessoa reage de forma diferente a um mesmo objeto ou situação. Em inglês, existe o termo self government (autogoverno), que indica que não é o estímulo o elemento determinante dessa reação, e sim o que o sujeito faz ou compreende em função do estímulo. Por isso a interação é um elemento tão primordial para a construção da autonomia. Na vida contemporânea, todos querem ser livres ou independentes. Querem compartilhar, fazer parte de algo que julgam significativo para si e para os outros. Um dos problemas para alcançar essas realizações é justamente o de enfrentar e superar dois obstáculos internos muito desafiadores. Um deles é o modo como a pessoa interage com as coisas e como expressa suas reações emocionais ou afetivas. Entre elas figura o medo da mudança. O outro refere-se à necessidade de aperfeiçoamento, ao compromisso de aprender algo que o capacita a ser incluído no grupo daqueles que já sabem. É, na prática, tornar-se outro, superando todo tipo de reações negativas e resistências. E é também tornar-se como o outro, aprendendo habilidades e conhecimentos. Um sujeito duplamente passivo — por estar subordinado a padrões de medo ou raiva, e de ignorância ou desatenção — dá lugar a um sujeito ativo e responsável por suas ações e independente, sem deixar de ser interdependente. Dizendo assim, parece uma tarefa quase impossível, mas é esse impossível que hoje embala os sonhos de um século que necessita de pessoas que sejam, ao mesmo tempo, livres e solidárias, ou seja, autônomas.
Lino de Macedo. Ser autônomo é vencer resistências e transformar-se. Internet: <https://novaescola.org.br> (com adaptações).
Os vocábulos “indivíduo”, “contemporâneas” e “resistências” são acentuados de acordo com a mesma regra de acentuação gráfica.