///
Sensações somáticas anormais são comuns na vida das pessoas. Estudos apontam que a maioria das pessoas tem uma sensação somática anormal a cada sete dias. Na maior parte das vezes, essas sensações não serão associadas a uma doença e terminarão por desaparecer espontaneamente, não repercutindo no sistema de saúde. Porém, sensações físicas anormais, além de serem causadas por alterações somáticas normais ou por doenças somáticas, também podem estar associadas a diferentes tipos de sofrimento emocional. É um fato bem conhecido que tristeza ou angústia, sentimentos frequentes na vida humana, têm efeitos físicos: um aperto no peito; o corpo dolorido; dificuldade de respirar; ou um grande cansaço. Também os transtornos mentais mais frequentes – as síndromes ansiosas e depressivas – são acompanhados de diversos sintomas físicos, tais como cansaço, astenia, fadiga, palpitações, dores, dispneia, sudorese de extremidades, entre outros. Em casos mais graves, as próprias queixas somáticas sem explicação médica são o problema principal – como nos quadros conversivos ou nas síndromes funcionais. O que importa, porém, é que esses sintomas físicos difusos, pouco definidos, para os quais não se verificam alterações anatomopatológicas que os justifiquem, frequentemente rejeitados pelos profissionais e cujos portadores são denominados pejorativamente de “poliqueixosos”, são importante causa de busca de atendimento de pessoas com sofrimento emocional.
As queixas somáticas inespecíficas representam uma demanda complexa, pois, na maioria das vezes, os profissionais de saúde não conseguem diagnosticar uma patologia que as justifique, o que implica inúmeras investigações clínicas e encaminhamentos a diversos especialistas e pode ocasionar uma insatisfação de ambos os protagonistas da relação médico-paciente, tornando o tratamento um campo de batalha fadado ao insucesso. Pesquisas demonstram que muitos profissionais de saúde, por terem dificuldade em lidar com os aspectos subjetivos do sofrimento das pessoas que buscam atendimento, tendem a acatar e aceitar melhor as queixas físicas dessas pessoas, o que funciona como importante reforço desse padrão de comportamento nos indivíduos.
O consultório é um espaço de apoio e esclarecimento, e as queixas físicas são parte do sofrimento emocional da pessoa sob cuidados médicos. Mesmo que nenhum transtorno físico ou mental esteja presente, as queixas devem ser acolhidas. A abordagem centrada na pessoa permite que os médicos de família acolham os sofrimentos e problemas dos pacientes e ajudem na busca de soluções. Saber trabalhar com a escuta e entender a narrativa desses pacientes permite que se consiga lidar com uma multiplicidade de relatos, nos quais queixas físicas não específicas se misturam a problemas pessoais e ao sofrimento emocional em um padrão marcado pela história de vida de cada um. A disposição para escutar histórias e para empoderar pessoas é o primeiro passo no cuidado a esses pacientes.
“O que importa, porém, é que esses sintomas físicos difusos” (linhas 10 e 11): O importante, entretanto, é que tais sintomas físicos difusos