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Em sua obra Modernidade Líquida (2001), Zygmunt Bauman, filósofo polonês recém-falecido, atribui à modernidade contemporânea, à pós-modernidade, a mesma plasticidade dos líquidos. Ela é “leve, líquida e mais dinâmica que a modernidade ‘sólida’ que suplantou”, flui, vaza, transborda, penetra lugares, contorna o todo e todos, tal como as ondas do mar. O indivíduo flui ao seu sabor e, ainda que podendo ser responsabilizado por suas ações e reações, é livre para questionar e refletir, reclamar e reivindicar. Seu horizonte é repleto de incontáveis oportunidades e realizações; é ele que escolhe seus caminhos, sem se preocupar com normas pré-estabelecidas, com as metalinguagens, com os governos e líderes. Seu individualismo atinge sua maior intensidade, particularmente quando acompanhado das competências de saber ser, estar, aprender e conviver, inclusive em ambientes virtuais complexos, emaranhados e fluidos. Como indivíduo multifuncional, está livre para buscar sua autorrealização, sem ser tolhido por qualquer Grande Irmão orwelliano. Todos devem ser igualmente livres para sentir, escolher, consumir e mover-se sem manipulações e frustrações. A fluidez do atual modo de produção, desse capitalismo tardio, não obstante os seus graus de negatividade, permite que o indivíduo se capacite, potencialize e consiga com eficiência sua autorrealização. As possíveis frustrações decorrem da multiplicidade de escolhas, possibilidades, caminhos e horizontes; os bons exemplos podem atenuá-las.
Não há, porém, lugares para os planos de longo prazo. A modernidade líquida se move com rapidez, as persistências se derretem e até o caráter se deixa corroer. Os compromissos perdem força. A mobilidade no mundo do trabalho leva à perda de laços de amizade. As histórias se constroem a cada novo posto de trabalho. Os colegas de trabalho são igualmente colaboradores, com pequenos laços de comprometimento com a empresa. A lealdade da modernidade sólida gera desconfianças nos locais de trabalho. Nestes tempos, a flexibilidade dos contratos de trabalho ocasiona satisfações instantâneas como forma de superação das inseguranças. É um tempo de carpe diem; pode ser que amanhã tudo já seja tarde. O termo cloakroom, usado por Bauman, expressa a ideia de indivíduos se fantasiando e assumindo comportamentos que variam conforme as ocasiões espetaculares e durante os seus tempos de ocorrência, apesar dos riscos de solidão.
Zacarias Gama. A quem serve a modernidade líquida de Bauman. Internet: <justificando.carta capital.com.br> (com adaptações).
Pelos sentidos do texto, conclui-se que a expressão “Nestes tempos” (linha 37) está empregada em referência à “modernidade sólida” (linha 36).