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O Brasil na estrada
Estou voltando de um fim de semana em Friburgo. Mas poderia estar regressando de qualquer cidade brasileira, que a situação seria a mesma. É que às vezes uma melhor compreensão do Brasil a gente encontra não nos tratados, mas num simples incidente cotidiano.
Por isto estou ali na estrada. O trânsito vai fluindo normalmente. De repente, na altura de Itaboraí (como acontece frequentemente), o fluxo dos veículos vai ficando mais lento. Descobre-se a causa: lá está um policial de trânsito fazendo com que os automóveis entrem em fila única. Isto é uma técnica que costumam usar para evitar engarrafamentos, sobretudo quando vai chegando o verão. Tal técnica, acredito, deve dar certo na Escandinávia, nunca aqui nos trópicos. A polícia rodoviária deve ter pensado que usando este processo evitaria que na altura de Magé o trânsito virasse um pandemônio. Ela sabe que, se deixar, os motoristas vão começar a ultrapassagem pela contramão, uma vez que não há praticamente movimento aí. É uma forma também de evitar desastres.
Este é o problema. A polícia rodoviária é brasileira, mas não conhece os brasileiros. Porque ela apenas armou o cenário para a dramatização de mais uma cena representativa do caráter nacional. Vamos assistir ao rito do “brasileiro esperto” que “leva vantagem em tudo”.
Ali estou com a família tentando ser bom brasileiro. O trânsito é lento, mas se continuarmos assim chegarei ao Rio a tempo [...].
De repente, percebo que um carro lá longe, atrás de mim, passa para a contramão e vem desabaladamente, ultrapassando a todos nós, simples carneiros ali obedientes. Com isto, ele ganhou alguns quilômetros à nossa frente.
Mas vejo isto e percebo que lá vem outro brasileiro esperto, outro e mais outros, todos na contramão ultrapassando a manada que pacientemente acredita que a ordem social possa levar a alguma coisa.
Em breve já não somos uma fila única, mas uma fila dupla está se formando sem que surja qualquer guarda alemão ou sueco para controlar o que quer que seja. E a coisa não para aí. Está, ao contrário, apenas começando. A ultrapassagem agora não é só pela minha esquerda. Começam a avançar pela minha direita, contra todas as ordens de trânsito. São ônibus, caminhões e carros que vão andando metade no asfalto, metade no barro e lama. Parecemos um exército de ocupação, uma romaria. Alguns ônibus estão cheios de torcedores de futebol, que cantam e batem na lataria, hostilizando os que transitam na pista certa. [...]
Nisto percebo que já não somos três filas apenas, mas quatro e cinco filas indo em direção ao caos. Lá de trás vieram outros espertinhos passando pelo matagal, pensando que seus carros são tanques. E não são meninões com tábua de surfe, mas respeitáveis senhores e matronas, com bigode e pança, que na segunda-feira vão se assentar nos escritórios para dirigir o país. A irracionalidade é total. [...]
(SANT’ANNA, Affonso Romano de. Porta de colégio & outras crônicas. 7 ed. São Paulo: Ática, 2003, pp.106-8.)
Todas as passagens abaixo, por meio de uma postura subjetiva, revelam a opinião do autor, EXCETO: