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Todas as línguas seguem regras. Muitas delas são variáveis, ou seja, há opções concorrentes para a "construção" dos enunciados em diversos domínios. O domínio mais óbvio é o da pronúncia. As gramáticas são claramente normativas em casos como "fluido"/"fluído", "fortuito", "ibero", etc., mas não tomam partido entre as pronúncias cahtax e cartas (para "cartas"), titia e tchitchia (para "titia"), ricifi e recife (para "Recife"). [...]
O problema - que é bem grave, gravíssimo, mesmo - é que não se ensina gramática estudando gramáticas, mas lendo manuais didáticos e livrinhos de autoajuda linguística (não erre mais, os 300 erros mais comuns, etc.), que simplificam brutalmente a questão e, especialmente, não oferecem explicações. Nos casos de disputas entre alternativas gramaticais, a história mostra quando e como as regras variaram (quando as formas surgiram), quais formas foram mais valorizadas, etc. E mostra a relevância dos contextos, como é o caso da concordância com sujeito posposto e composto. [...]
A cada dia se observa um número maior de empregos de "eu" / "ele" como objeto direto ("vi ele", "pega eu", "beija eu", "leva eu", "vi ele na rua"). Esta "tendência" para o emprego cada vez maior dos pronomes retos em todas as funções se observa em outros lugares, como no famoso caso "escolar" "entre mim e ti", cada vez mais substituído por "entre eu e você". Uma das razões para que esta última forma tenda a se expandir é a "queda" dos oblíquos na posição de objeto, seu lugar de resistência. Outra é que, com a preposição "entre", a exigência do pronome oblíquo só se aplica a "eu" e "tu" (ninguém diz "entre mim e ele" e "entre nós", mas sim "entre mim (eu) e ele/ela", "entre nós". Nunca há manual (nem professor de TV) que trate deste caso. É bem comum ler que "entre" exige pronome oblíquo, mas o exemplo é "entre mim e ele"... [...]
Em suma: fatores estruturais, como a função sintática e/ou a posição do material concernido (pronome, oração subordinada, etc.) e fatores externos, como a idade e a escolaridade dos falantes ou o tipo de texto (mais ou menos formal) condicionam a escolha de uma ou de outra regra. Inconscientemente, na maioria das vezes. Os dados mostram que diversos aspectos internos e também externos à gramática explicam por que se usam determinadas construções.
Enquanto não aceitarmos que não se trata de erros, mas de variantes, a escola não vai sair do lugar. Não estou dizendo que ela deve deixar de ensinar a norma culta (ninguém diz). Ao contrário: estou dizendo que, para ensinar bem e com resultados relevantes a norma culta, deve-se passar pelo bom conhecimento da língua. O que inclui conhecer os fatores que explicam as diversas variantes. [...]
Após a leitura do texto é possível afirmar corretamente que o autor: