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A. O JUÍZO FINAL
Chegou o miserável milionário no céu e, impacientemente, esperou a sua vez de ser julgado. Introduziram-no numa sala, noutra sala, noutra sala, até que se viu frente a uma luz ofuscante, na qual pouco a pouco foi distinguindo a figura santa do Pai dos Homens. Em voz tonitroante, este, tendo à direita, Pedro, e, à esquerda, uma figura que ele não conhecia, julgou sumariamente dois outros pecadores que estavam à sua frente. E, afinal, dirigiu-se a ele:
- Que fez você de bom na sua vida?
- Bem, eu nasci, cresci, amei, casei, tive filhos, vivi.
- Ora - disse o Senhor -, isso são atos sociais e biológicos a que você estava destinado. Quero saber que bondade específica e determinada você teve para com o seu semelhante.
- Bem - disse o milionário -, eu criei indústrias, comprei fazendas, dei emprego a muita gente, melhorei as condições sociais de muita gente.
- Não, isso não serve - disse o Todo-Poderoso -, essas ações estavam implícitas ao ato de você enriquecer. Você as praticou porque precisava viver melhor. Não foram intrinsecamente boas ações, desprendidas, não servem.
O milionário escarafunchou o cérebro e não encontrou nada. Em verdade, passara uma vida egoísta, pensando apenas em si mesmo. Nunca o preocupara seu semelhante, nunca olhara para o ser humano a seu lado senão como uma fonte de lucro para as suas indústrias. Mas, de repente, lembrou-se das obras de filantropia.
- Ah - disse, puxando uma caderneta -, aqui está. Uma vez dei cem cruzeiros para uma velhinha da Casa dos Artistas, outra vez contribuí com duzentos cruzeiros para o Hospital dos Alienados e outra vez contribuí com quinhentos cruzeiros para a Fundação das Operárias de Jesus.
- Só? - perguntou Deus.
- Só - disse o milionário contrafeito.
- Josué! - gritou o Todo-Poderoso -, dá oitocentos cruzeiros ao cavalheiro aqui e manda ele pras profundezas do inferno!
Moral: Amor com amor se paga e o dinheiro com dinheiro também.
Sobre os recursos de construção do texto, leia com atenção as assertivas a seguir. Em seguida assinale a alternativa que contenha a análise correta das mesmas.
I. Há, no texto, emprego de maiúsculas com função de particularização de um ser.
II. Dos sinais de crase que aparecem no primeiro parágrafo, dois têm emprego obrigatório; e um, facultativo.
III. A última frase do texto, que antecede a moral, é escrita em linguagem própria da fala, por isso, nesse caso, é aceita a transgressão na colocação do pronome reto “ele” como complemento verbal.
IV. A repetição do termo sala, no primeiro parágrafo, deprecia o texto, e deveria ser substituída por uma palavra sinônima ou poderia simplesmente ser omitida.