///
Leia os trechos I, II, III e IV do conto Corpo Fechado, de Guimarães Rosa e o trecho de Marxismo e Filosofia da Linguagem, de Mikhail Bakhtin.
Trecho I:
“José Boi caiu de um barranco de vinte metros; ficou com a cabeleira enterrada no chão e quebrou o pescoço. Mas, meio minuto antes, estava completamente bêbado e também no apogeu da carreira: era o “espanta-praças”, porque tinha escaramuçado, uma vez, um cabo e dois soldados, que não puderam reagir, por serem apenas três.
—Você o conheceu, Manuel Fulô?
— Mas muito!… Bom homem… Muito amigo meu. Só que ele andava sempre coçando a cabeça, e eu tenho um medo danado de piolho…
— Podia ser sinal de indecisão...
— Eu acompanhei até o enterro. Nunca vi defunto tão esticado de comprido… Caixão especial no tamanho: acho que levou mais de peça e meia de galão…
— E quem tomou o lugar dele?
— Lugar? O sujeito não tinha cobre nem p’ra um bom animal de sela.., O que ganhava ia na pinga… Mão aberta...
— Mas, quem ficou sendo o valentão, depois que ele morreu?
— Ah, isso teve muitos: o Desidério…
— Cuera?
— Cabaça… Só que era bruto como ele só, e os outros tinham medo dele. Cavalo coiceiro… Comigo nunca se engraçou!
— Como acabou?
— Acabou em casa de grades. Foi romper aleluia na cidade, e os soldados abotoaram o filho da mãe dele… Não voltou aqui, nunca mais...
— E o tal Dêjo?
— Esse foi depois… Antes teve o Miligido… E o nome daquele era Adejalma, nome bobo, que nem é de santo… Um peste. Muita prosa, muita farroma, mas eu virei o cujo do avesso! Me respeiou! Me respeiou, seu doutor!
— Briga, Manuel?
— Lhe conto, seu doutor. Foi na venda: eu estava comprando cadarço de roupa, coisa de paz… O homem já veio chegando enjoado, me olhando com cara de herege… Negaceou. Depois, virou p’ra o Pércio, que era caixeiro nesse tempo, e perguntou: “O senhor tem aí dessa raça de faca que entra na barriga e murgueia?” E olhou p’ra mim, outra vez, p’ra ver se eu estava com receio,..
— E você, Manuel Fulô?
— Eu ia serrar de cima, mas nem não tive tempo, porque nessa horinha vinha entrando um tropeiro da Soledade, que era homem duro, e pensou que a ofensa era p’ra ele… E aquilo foi o tropeiro dando um murro no balcão, e tossindo, e perguntando também p’ra o Pércio: “Por falar nisso, o senhor não terá também dessa raça de bala que bate na testa e chateia?!”
Pois aí o Adejalma se riu de medo, e disse que estava era brincando…
— Mas, então, Manuel, como foi que você virou o Dêjo pelo avesso?
— Ara, ara, seu doutor! Se o tropeiro não tivesse entrado, eu fazia desordem, e fazia mesmo… Porque, depois, o cachorro do Adejalma ainda me perguntou, só por deboche, porque ele estava cansado de saber quem eu era: “Como é que você chama, rapaz?”…
— E você?
— Eu pus a mão na coronha da garrucha, e respondi: “Só eu perguntando p’r’a minha mãe”…
— E ele?
— Um desgraçado! Era só ele bulir, e eu mais o tropeiro mandávamos o corpo dele p’ra o quincumbim… Aquele sujo! Assassino! Tralha!
— Que raiva é essa, fora de hora, Manuel?
— Pois o senhor não imagina que, ao depois, o miserável desse Adejalma, sé por medo da minha macheza, me convidou, mais o tropeiro, p’ra beber com ele e fazer companhia?… O tropeiro agradeceu e não aceitou, mas eu fui, porque não sou soberbo… Pois o senhor não acredita que o canalha foi encomendando despesas, e me elogiando e respeitando, até que eu fiquei assim meio escurecido, e aí ele foi-s’embora e me deixou sozinho p’ra eu ter de pagar tudo, por perto de uns quatro mil réis É ou não é p’ra uma pessoa correta ter raiva?” (p.262-264)
Trecho II:
“Ora pois, um dia, um meio-dia de mormaço e modorra, gritaram “Ó de casa!” e eu gritei“Ó de fora!”, e aí foi que a história começou. Bom, fui ver. Era uma rapariguinha risonha e redonda, peituda como uma perdiz. Bonita mesmo, e diversa, com sua pele muito clara e os olhos cor de chuchu. Pasmou parada, e virou pitanga, pois não contava decerto encontrar gente de cidade e gravata.Animei-a:
— Hã?
Então ela me disse que ia casar, e que por isso estava percorrendo o arraial, pedindo “adjutório”. Dei, com prazer, o “adjutório”, mas perguntei quem era o noivo. Era o Manuel!
— Fulô?
— Sim, senhor…” (p.271)
Trecho III:
“— Chega de beber, Manuel Fulô. Você já está ficando vesgo.
— Bom, vamos mesmo parar, que a despesa já está alta, com tanta garrafa aberta… Só queria lhe explicar ainda, seu doutor, que, eu…
E Manuel Fulô desceu cachoeira, narrando alicantinas, praga e ponto e ponto e praga, até que... Até que assomou à porta da venda— feio como um defunto vivo, gasturento como faca em nervo, esfriante como um sapo — Sua Excelência o Valentão dos Valentões, Targino e Tal. E foi então que de fato a história começou.” (p. 283)
Trecho IV:
“Mas, de fato, cartas dadas, a história começa mesmo é aqui. Porque: era uma vez um pedreiro Antonico das Pedras ou Antonico das Águas, que tinha alma de pajé; e tinha também uma sela mexicana, encostada por falta de animal, e cobiçava ainda a Beija-Fulô, a qual, mesmo sendo nhata, custara um conto e trezentos, na baixa, e era o grande amor do meu amigo Manuel Fulô. Pois o Antônio curandeiro-feiticeiro, apesar de meu concorrente, lá me entrou de repente em casa, exigindo o Manuel Fulô a um canto — para assunto secretíssimo.” (p.288)
( ROSA, J. Guimarães. Corpo fechado. In: ROSA, J. Guimarães. Sagarana.Rio de Janeiro: Nova Fronteira,2012.p262-290. Grifos nossos)
“O discurso citado é o discurso no discurso, a enunciação na enunciação, mas é, ao mesmo tempo, um discurso sobre o discurso, uma enunciação sobre a enunciação.[...] quando passa a unidade estrutural do discurso narrativo, no qual se integra por si, a enunciação citada passa a constituir ao mesmo tempo um tema do discurso narrativo. Faz parte integrante de sua unicidade temática, na qualidade de enunciação citada, uma enunciação com seu próprio tema: o tema autônomo então torna-se o tema de um tema.” (BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo:Hucitec,1996. Grifos do autor)
Julgue como VERDADEIRA (V) ou FALSA (F) cada uma das afirmativas abaixo e, a seguir, assinale a alternativa que contém a sequência CORRETA.
( ) Ao longo da narrativa de Corpo Fechado, três começos são apresentados. No último deles, o narrador-doutor enfatiza o real início da história à moda do início dos contos da carochinha: era uma vez... O que pode significar tanto a recorrência ao maravilhoso – o corpo fechado de Manuel Fulô – na solução do conflito quanto, principalmente, o fato de que esse narrador é “um contador de histórias” tal qual Manuel Fulô e que, portanto, nada garante a veracidade de sua narrativa.
( ) Embora o conto apresente dois narradores: Manuel Fulô e o narrador-doutor, o ponto de vista sob o qual a história será contada não é explicitamente apresentado ao leitor. É a constituição da trama narrativa, isto é, o modo de contar a história que mostrará o narrador-doutor como verdadeiro orquestrador da narrativa, é ele quem “puxa o assunto” – conforme se pode verificar no primeiro trecho selecionado – é ele quem diz do que quer falar. Porém, dar a voz a Manuel funciona como forma de mascarar sua condução da narrativa.
( ) O discurso citado de Manuel Fulô funciona como aquele discurso que, por vias não óbvias ou diretas, conta o modo de contar do doutor. É através do contraponto da fala de Manuel Fulô que se pode apreender a posição do narrador-doutor.
( ) O narrador-doutor, diferentemente de Manuel Fulô, mantém-se dentro dos limites estritos da história, enquanto este faz com o leitor um pacto de desmascaramento do narrador-doutor, aquele não consciente das astúcias de Manuel Fulô entrega-lhe, docemente, todos os instrumentos de seu próprio desmascaramento.