///
ESSES TEXTOS
O texto primeiro existe só, como ponto. Se transforma depois em linha com sua própria força de deslocação, sua velocidade própria. Depois, o leitor institui outra linha, lendo. O leitor constitui um feixe de linhas cruzadas organizando os textos. No percurso do texto e no trânsito da leitura, as linhas se chocam, se repudiam, se perdem, correm pararelas e podem se amar. Depois, saber fazer retorná-las a ponto. (Mas o importante é o leitor. Você.) É preciso ter calma. Saber ir abotoando os elementos vários à espera do clique de colchete. Quando dois ou mais se engatam, fecha-se um sentido único e exclusivo. Mas que você pode emprestar a alguém, desde que o diga (Não tenha medo da alta-velocidade. Não tenha receio de dar marcha à ré.)
É preciso ter pressa. Saber ir desabotoando os colchetes de sentido como quem quer tirar camisa usada e suada de dia de trabalho. Cada camisa, depois de surrada, é fonte de novo esforço. Ou então vira camisa-de-força. É preciso saber vestir o texto, como tatuagem na própria pele. É preciso saber tatuar o texto, como sulcos feitos na bruta realidade. O duplo estilete do texto e da leitura, do autor e do leitor. A dupla tatuagem contra o próprio corpo e a realidade bruta. A tatuagem que se imprime para poder forçar a barra. A tatuagem que o corpo, depois de violado tatua. Violentando.
(SANTIAGO, Silviano, Crescendo durante a guerra numa província ultramarina. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.)
Pensemos no texto como algo vivo.
Um bom exemplo da relação existente entre texto e leitor está no poema “Esses Textos”, de Silviano Santiago. Esse poema deixa-nos algumas pistas, a fim de que, através destas, um contato mais próximo, entre leitor e texto, se estabeleça.
Leia as citações a seguir (que se apresentam em sentido figurado), sabendo que nem todas podem exprimir essa relação interativa: I) “O texto primeiro existe / só, como ponto. Se transforma depois em linha / com sua própria força / de deslocação”.
II) “Depois, / o leitor institui / outra linha, lendo.”
III) “No percurso do texto / e no trânsito da leitura, / as linhas se chocam, / se repudiam, se perdem, / correm paralelas / e podem se amar.
IV) “O duplo estilete / do texto e da leitura, / do autor e do leitor.”
Agora, escolha a opção que representa a adequação dessa interação entre leitor e texto: