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O “Quarto de despejo” e o spread literário
Luiz Maurício Azevedo
A maneira mais eficiente de se acabar com um livro não é jogando suas páginas ao fogo, proibindo sua circulação ou interditando a impressão de seus exemplares; a forma mais eficaz de destruir uma obra é controlando sua recepção, de forma a orientar como aquilo que foi escrito deve ser lido. Trata-se de uma das mais sofisticadas formas de controle: a da vigilância da interpretação. É por isso que a crítica literária se tornou um campo invisível de combate.
Nesse tabuleiro há muitos exércitos. Há os que se colocam como propagandistas das obras, pessoas que se dispõem a espraiar tudo o que chega até elas, porque a criticidade é um luxo que elas não podem, por questões cognitivas, bancar. E há também aqueles que, de forma sistemática e consciente, preferem lotear suas forças produtivas em nome da proteção dos relatos consagrados, em textos panfletários que se apresentam como peças críticas, mas que na verdade são meras propagandas do reacionarismo fascista disfarçado de conservadorismo estético; de Eliot, eles gostam mais da posição política do que de seus versos; de Pound admiram somente seu apreço a Mussolini. É claro que não admitem abertamente em suas colunas semanais, mas esperam que a onda da representatividade passe e que a todas somente as vidas brancas voltem a importar.
Querem evitar, a todo custo, o triunfo da vontade negra; não porque são brancos, mas porque são – e vão precisar de muito Lacan para admitir isso – racistas. Contudo, mesmo essas drosófilas do pensamento, já perceberam que é preciso emular um certo discurso de que a literatura é uma janela para o social. E, como tal, teria o poder de consertar tudo aquilo que deu errado no projeto civilizatório. Foi assim que sumiram com a obra de Carolina Maria de Jesus, uma das mais brilhantes autoras brasileiras do século XX. Barbara Foley – a crítica literária novaiorquina – me disse certa vez que um instrumento teórico não deve ser avaliado apenas pelas coisas que ele eventualmente ilumina, e sim pelas coisas que conscientemente deixa de iluminar. É necessário, portanto, estar atento tanto para o que está sendo dito quanto para o que está sendo insinuado no miolo dos silêncios eloquentes.
Quem produz literatura está sempre procurando esconder, na iluminação excessiva dos palcos, justamente aquilo que os críticos precisam encontrar. Há algo de paranoico nessa profissão. E, sem dúvida, os teóricos atribuem-se a si próprios importância que não possuem. Melhor seria concluir que se os mercados, as audiências, os pares dizem que não há importância no que eles fazem, é possível mesmo que não exista valor algum no que produzem. Infelizmente, não trabalho com o melhor. Tenho, aliás, como Florian Zeller, certa fascinação pelo pior. E acho que o exercício da crítica tem muito a dizer sobre as coisas e sobre o modo como o mundo funciona. É especificamente por isso que sobre alguns livros a intelligentsia se sente compelida a dizer muito pouco ou quase nada. Há sessenta anos Quarto de Despejo recebe da crítica o tipo de atenção que produz mais dano que valor. Durante esse período reinou um silêncio epistemológico, fruto de um vilipêndio teórico de cunho racial. Proliferaram as ideias de que Carolina de Jesus não fazia literatura; de que ela seria uma invenção midiática de Audálio Dantas, que sua obra-prima era na realidade a sombra mutilada de seus diários, cujo propósito único seria fornecer à classe média uma oportunidade de cosplay ontológico.
Sorte sua que há aqui alguém disposto a comprar inimigos e desfazer enganos. Sua gratidão é apreciada. Agora, vamos aos fatos: a literatura de Carolina de Jesus é feita de uma matéria muito mais áspera que as utilizadas pela maioria esmagadora de seus pares, que tiveram vidas materiais proporcionais ao conforto estético que nos apresentam em seus textos. De resto, Audálio pode ter descoberto muita gente, mas não descobriu Carolina de Jesus. Essa ideia de um head hunter literário que sai por aí com uma varinha de condão a revelar Giseles Bündchens literárias não passa de uma fetichização (mais uma) produzida no seio da Indústria Cultural. Espalhou-se a ideia de que o sistema social brasileiro, embora perverso e desigual, não impede que se descubra – no inferno ou na favela – o talento literário. A maior parte dos autores gosta de alimentar essa fantasia porque ilusão dá dinheiro. A má notícia é que o mesmo sistema que pinça excluídos e os transforma em modelos de meritocracia e salvação, com contratos editoriais atraentes e adiantamentos polpudos, também produz a miséria da qual eles saíram.
Assim, a mesma estrutura social que limitou as oportunidades de desenvolvimento profissional de Carolina de Jesus reconheceu nela uma habilidade incomum de expressão verbal. E são as mãos dissimuladas desse sistema que vivem por aí a questionar em salas de aula, em grupos de estudo ou em revistas especializadas, a legitimidade estética de seu texto literário. O correto seria então dizer que Audálio tornou Carolina de Jesus mais conhecida, o que embora não seja pouco, é bem menos do que dizer que ele a descobriu. O fato é que nenhum de nós conseguiu ainda descobri-la. A profundidade escura de seu modernismo cru, a complexidade sufocante das estratégias que criou para dissolver a realidade e fazer com que ela coubesse na miúda sintaxe de sua escolarização precária… tudo isso ainda permanece relativamente oculto. Pesquisadoras como Roberta Flores Pedroso, Fernanda Felisberto, Rosangela Frateschi, Fernanda Miranda e Raffaela Fernandez (não por acaso mulheres) estão trabalhando muito para reverter esse quadro. Elas não pertencem a nenhum dos exércitos descritos no começo desse texto. Estão em outra ordem e respondem a outro comando. A história não faz justiça a ninguém. Somos nós que, de vez em quando, fazemos jus a ela.
O interesse renovado por Quarto de despejo, como exemplificam as recentes pesquisas apontadas no último parágrafo do texto de Azevedo, ilustra, em alguma medida, o que observa Antônio Candido (2006) no excerto a seguir, retirado de Literatura e sociedade: “[a] obra não é produto fixo, unívoco ante qualquer público; nem este é passivo, homogêneo, registrando uniformemente o seu efeito. São dois termos que atuam um sobre o outro, e aos quais se junta o autor, termo inicial desse processo de circulação literária, para configurar a realidade da literatura atuando no tempo”.
Tendo em mente o embasamento sociológico por meio do qual o crítico investiga a relevância e a interseção de categorias como autor, obra e público, para se compreender o funcionamento do sistema literário, leia as afirmações abaixo e marque V, para as verdadeiras, e F, para as falsas.
( ) No concernente à categoria do autor, nota-se que depende não só do processo da (auto)identificação do produtor como componente de um segmento específico, mas também das condições de existência encontradas pelos membros desse coletivo, as quais se ligam ao imaginário social estabelecido sobre o papel/função que desempenham.
( ) Conquanto a categoria do público funcione como mediadora entre obra e autor, dada a contribuição trazida pelas reações do(s) leitor(es) para aguçar o olhar do criador sobre a própria criação, sua importância é considerada relativa, haja vista que nem todo escritor pauta diretamente seu processo compositivo nas expectativas do receptor.
( ) Ainda no que se refere ao público, sua configuração se dá pela existência e natureza dos meios de comunicação – esta última marcada tanto pelos instrumentos de divulgação quanto pelo grau de instrução e pelos hábitos intelectuais de quem divulga −, pela formação de uma opinião literária e pela diferenciação de setores mais restritos que tendem à liderança do gosto.
( ) Consideradas as três categorias em correlação, observa-se que o reconhecimento da posição do escritor (a receptividade às suas ideias ou à sua técnica, a remuneração do seu trabalho) depende da aceitação da sua obra por parte do público médio. Escritor e obra constituem, pois, um par solidário, funcionalmente vinculado ao público.
A sequência correta, de cima para baixo, é