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Concepção de linguagem e ensino de Língua Portuguesa (LP)
A linguagem é lugar de constituição do sujeito. Como consequência desse fato, é preciso refletir sobre uma concepção de linguagem que fundamente o ensino de língua na escola e que esteja compatível com a formação de tal sujeito nas sociedades contemporâneas. Trataremos aqui de abordar algumas concepções de linguagem, segundo autores que têm contribuído para as pesquisas sobre ensino de língua.
Geraldi (1984), Travaglia (2000) e Koch (2002) abordam as concepções de linguagem aliadas ao ensino de Língua Portuguesa. Os autores apresentam fundamentalmente três concepções de linguagem: a) como expressão do pensamento; b) como instrumento de comunicação; e c) como processo de interação. Essas três concepções estão aliadas a três grandes correntes dos estudos linguísticos do século 20, e em cada uma delas está implícita uma ideologia.
A linguagem como expressão do pensamento está afinada aos ideais da gramática tradicional. Nessa concepção, temos como ideologia a representação do mundo por meio da linguagem, cuja principal função é refletir o pensamento do sujeito, desconsiderando seu meio social. Quando concebemos a linguagem como tal, podemos ser levados a crer que “pessoas que não conseguem se expressar não pensam” (Travaglia, 2000, p. 21). Para Koch (2002), nessa concepção, temos um “sujeito psicológico”, individual, visto como um ego que constrói uma representação mental e deseja que esta seja captada pelo interlocutor da maneira como foi mentalizada. Nesse sentido, desconsideram-se as questões sociais.
A segunda concepção (linguagem como ferramenta de comunicação) está relacionada aos estudos estruturalistas e à teoria da comunicação. A língua é considerada como um código (conjunto de signos que se combinam segundo regras) por meio do qual se transmite alguma informação. Relacionando essa concepção ao sujeito, Koch (2002) esclarece que, concebendo a língua apenas como estrutura, temos um sujeito “assujeitado” pelo sistema, no sentido de que ele não é dono de seu discurso e de sua vontade: “sua consciência, quando existe, é produzida de fora e ele pode não saber o que faz e o que diz. Quem fala na verdade é um sujeito anônimo, social” (Koch, 2002, p. 14).
Já na terceira concepção, que está relacionada aos estudos da Linguística da Enunciação, da Pragmática, da Linguística Textual, da Sociolinguística, da Análise do Discurso, entre outras advindas após a década de 1960, é considerada como uma forma de interação: para além de conceber a linguagem como forma abstrata na mente do sujeito, ou como mensagem a ser transmitida por um código a outro sujeito, a linguagem é idealizada como um lugar de interação humana, no qual o sujeito que fala pratica ações, agindo no mundo e interagindo com a sociedade de forma geral via linguagem oral e escrita. Nesse sentido, a linguagem é considerada uma atividade, sendo possível agir pelo discurso com um objetivo específico em determinado contexto.
Koch (2002) considera que, nesta concepção, o sujeito é uma entidade psicossocial, evidenciando seu caráter ativo. “É um sujeito social, histórica e ideologicamente situado, que se constitui na interação com o outro. Eu sou na medida em que interajo com o outro” (Bakhtin apud Koch, 2002, p. 15).
Consideramos que a linguagem como forma ou processo de interação é a concepção mais adequada para o ensino de Língua Portuguesa na escola, visto que, a partir dela, dá-se conta de um ensino produtivo de língua materna, que analisa os aspectos discursivos da língua numa perspectiva do uso e da reflexão linguística nos diversos contextos sociais. Assim, conseguiremos atender à perspectiva de sujeito anteriormente apresentada: um sujeito que se constitui pela linguagem numa dada sociedade porque é autor de seu discurso.
Entretanto, ainda hoje, como vemos nas pesquisas recentes, há a adoção de uma concepção inadequada, resultando daí um trabalho quase que exclusivo de metalinguagem, com memorização de regras e domínio da norma padrão, excluindo o desenvolvimento da competência discursiva do falante e a conscientização sobre a legitimidade dos dialetos sociais. Perdura, até hoje, entre grande parte dos professores de Língua Portuguesa, a ideia de que ensinar português é auxiliar os alunos a decorar regras para passar em concurso público e vestibular. Outros até fazem considerações sobre mudanças que ocorreram nas últimas décadas, evidenciando, principalmente, a existência do trabalho com textos, contudo, ainda se trata de um trabalho intuitivo.
Como consequência da adoção de uma concepção de linguagem como interação, o texto – oral e escrito –, como materialização do discurso de um sujeito situado, torna-se o principal objeto de ensino. Assumir um trabalho contínuo de análise e produção de textos resulta em desenvolvimento de capacidades de linguagem para a efetiva participação social em contextos diversos. O desafio atual no ensino de Língua Portuguesa está em colocar o texto na base do ensino de língua, considerando seus aspectos linguísticos e discursivos, aliando seu estudo às questões de análise gramatical, às relações entre fala e escrita e ao conhecimento das variedades linguísticas e de seus usos sociais.
Como desdobramento da adoção dos gêneros textuais/discursivos como centrais nos programas e currículos de Língua Portuguesa, poderemos, então, refletir sobre um ensino de gramática alicerçado nos usos da língua, ressaltando o lugar da leitura e da escrita no desenvolvimento de competências que atendam a todos os sujeitos. Isso significa ampliar as habilidades que os alunos trazem de seu meio para a escola.
CYRANKA, Lúcia Furtado M. & MAGALHÃES, Tânia Guedes. Sujeito, educação e o trabalho com a Língua Portuguesa na escola básica. IN Rev. Bras. Estud. Pedagógicos. (online), Brasília, v. 95, n. 241, p. 662-675, set./dez. 2014.
As situações-problema abaixo descritas já foram vistas em salas de aula de Língua Portuguesa. Combine o código abaixo com as 6 descrições que se seguem, de acordo com a concepção de linguagem que tem o professor que assim age. Marque a opção que as sequencia de cima para baixo: I – ensino da Linguagem como expressão do pensamento; II – ensino da Linguagem como instrumento de comunicação; III – ensino da Linguagem como processo de interação.
( ) descrição total da tipologia de substantivos em frases isoladas de seus contextos de fala;
( ) cópias de textos já publicados com o intuito de identificar e listar oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas;
( ) observação reflexiva do emprego dos verbos de acordo com o paralelismo verbal pertinente à trama coesiva e coerente de um texto;
( ) descritividade da sintaxe oracional com vistas à argumentação e aos efeitos de sentido planejados pelo usuário.
( ) ensino de pontuação à luz da sintaxe, observando também os aspectos pragmáticos e estilísticos para futuros usos.
( ) ensino de produção de textos escritos e orais a partir de um tema atual sem mais orientações discursivas para a escritura do texto.