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RECONHECER UM ERRO É DESUMANO
Na parede da minha casa tenho emoldurado um e-mail com um elogio feito pelo meu maior ídolo na profissão. Devo ter passado alguns dias muito apaixonada por mim mesma pelo reconhecimento feito justamente por aquele que é minha maior referência.
Em breve, ao lado dele vou pendurar o erro mais estúpido que cometi profissionalmente. Não porque precise de algo para me lembrar, mas porque eles representam algo importante sobre deslizes que cometemos na vida.
Não somos apenas uma coisa. Não sou apenas a profissional cheia de atributos que meu mestre faz crer que eu seja, e também não sou a incompetente que a fila de haters que se formou na semana passada para me jogar pedra adoraria que eu fosse.
Errar é humano, ouvi de consolo. Mas reconhecer o erro pode ser uma das experiências mais desumanas.
Quando você comete um erro, o mais fácil é lidar com as acusações que não refletem quem você é.
Chega a ser engraçado ser xingada por um moço que tem em seu perfil de redes sociais uma foto em posição de flor de lótus, com mensagens de paz e de desejo que a humanidade seja mais amorosa. Ou pela professora universitária que vê em meus argumentos viés político quando ela mesma tem em sua foto um avatar de... político.
Ou de gente que se esconde atrás de perfis fakes para me acusar de estar a serviço do mercado, da mídia (como se eu não trabalhasse nela), da CIA. Tem também aqueles que xingam coisas pavorosas em público e se desculpam inbox, como cachorrinho que derrubou o pote de água. O ser humano é realmente fascinante.
O mais difícil, no entanto, é lidar com a nossa própria cobrança. O chicote que bate nos outros é ainda mais grosso e castiga com mais força quando nos penitenciamos. “Cada vez que cometo um erro, penso em suicídio”, disse meu ídolo nos dias em que vivi meu calvário.
É isso, a gente tem um pouco de vontade de morrer. E morre um pouquinho, de vergonha, de tristeza. “É como se houvesse um dedão enorme apontando para mim, com riso sarcástico, dizendo: não pense que não é uma besta.”
É assim que a gente se sente ao reconhecer um erro, por menor que seja, por mais que cuidados tenham sido tomados. “Sempre parece um 7 x 1.”
Por outro lado, os maiores aprendizados acontecem quando cometemos erros, acredita Edward Hess, autor do livro Learn or Die (Aprenda ou Morra). Para ele, aprender é possível apenas em ambientes em que as pessoas tenham liberdade para falar.
Me parece a descrição de uma sociedade democrática. Mas como sabemos hoje muita gente não está interessada em liberdade de expressão, talvez pelo que Hess descreve como uma sociedade de pensadores preguiçosos e que tiram conclusões apressadas.
Somos grandes máquinas de confirmações. E, portanto, não nos interessamos pelo que não chancela o que acreditamos.
Ninguém quer errar, passar vergonha, ser hostilizado, ter que reconhecer. Só quem se acha infalível pode ter impressão do contrário.
Na passagem “Devo ter passado alguns dias muito apaixonada por mim mesma pelo reconhecimento feito justamente por aquele que é minha maior referência”, o termo em destaque recupera, por coesão: