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Minha avó tinha os cabelos cor de fogo e customizava suas havaianas com as conchas que ela catava no mar. Mergulhou no mar todo dia da sua vida, até morrer, aos 92 anos.
Quando se formou em sociologia, nos anos 1930, era a única mulher da faculdade. Foi mãe de três filhos biológicos e de uns 30 filhos adotivos, dentre os quais alguns meninos de rua, pra quem ela insistia em ensinar xadrez.
Fabio tinha 15 anos, mas parecia nove. Tentou levar a bolsa da minha avó. Terminou na casa dela, em frente a um tabuleiro, comendo biscoitos de gengibre. Daniel, filho do porteiro do seu prédio, passava as tardes na portaria, entediado. Minha avó cismou que ele tinha que pintar. Comprou quadros, tinta e lhe dava aulas todo dia – hoje, Daniel é artista plástico.
Quando meus pais viajavam, ela se mudava lá para casa e as regras mudavam imediatamente. Todo dia era dia de batata frita, banana frita e alho cru, picadinho – um santo remédio para doenças que não tínhamos. Quando alguém não queria ir para a escola, não ia. Passava o dia com ela jogando xadrez, pintando com o dedo, aprendendo a tocar piano.
No piano, misturava Bach, Beethoven e marchinhas de Carnaval, algumas de sua autoria. Além de compor marchinhas, era escultora, pianista e astrônoma amadora. Pulou de asa-delta no aniversário de 80 anos (mentiu que tinha 70). (...)
Segundo o texto é possível inferir que: