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PARTIR DOS EFEITOS
Uma das razões pelas quais a pedagogia das línguas é tão marcadamente normativa tem a ver com uma concepção equivocada de sentido. Em geral, supõe-se que o sentido é alguma coisa que temos na mente e que caberia à língua pôr para fora, para ser acessível à mente dos outros. Um dos efeitos ideológicos dessa concepção é a idéia segundo a qual só certas pessoas (que pensariam corretamente) têm efetivamente o que dizer. Os que falam “mal” também não teriam claro em sua mente o que dizer ou produziriam sentidos distorcidos, sem “lógica”.
Acho que se compreenderia melhor o funcionamento da linguagem supondo que o sentido é um efeito do que dizemos, e não algo que existe em si, independentemente da enunciação, e que envelopamos num código também pronto. Poderiam mudar muitas perspectivas. Por exemplo, em vez de perguntarmos se se pode ou não empregar um estrangeirismo, faríamos perguntas mais inteligentes e provocaríamos respostas mais adequadas. A resposta costuma ser: se já temos uma palavra para aquele sentido, não devemos empregar o estrangeirismo. Se não temos tal palavra, o estrangeirismo se justifica.
Mas, mudemos de perspectiva: se o sentido nunca é prévio, empregar ou não um estrangeirismo teria menos a ver com a existência ou não de uma palavra equivalente na língua do falante. O que importa é o efeito que o emprego de palavras estrangeiras produz. Pode-se dar a entender que se viajou, que se conhecem línguas. Uma palavra estrangeira numa placa ou numa propaganda não indica apenas ignorância. Pode indicar desejo de ver-se associado a outra cultura, a outro país, por seu prestígio.
O mesmo vale para outros tópicos. Deve-se ou não colocar certas palavras entre aspas? Em vez de responder sim ou não, a resposta poderia ser: não empregar aspas dará a entender que se assume a palavra; empregar aspas dará a entender que a palavra é citada, ou, mais genericamente, que é de outro (é gíria de outros, é um estrangeirismo, é um termo técnico etc.).
Suponhamos que alguém pergunte se o correto é escrever “hamburgers” ou “hambúrgueres”. Você pode assumir uma atitude normativa, segundo a qual as línguas estão prontas e são estanques. Assim, ou as palavras são estrangeiras ou nativas. Nesse caso, a resposta seria que em português a única saída seria escrever “hambúrgueres” (porque não há plurais assim ou assado em português, porque é proparoxítona etc.); se a palavra ainda for inglesa, a grafia é outra. Mas pode-se também responder de outra forma: escrevendo “hamburgers”, você produz o efeito típico que produz o uso de um estrangeirismo (você é esnobe, viajou, estudou inglês, é linguisticamente liberal etc.); escrevendo “hambúrgueres”, o efeito é que você considera que a palavra já foi incorporada ao português etc. Ao mesmo tempo em que se refere a uma comida meio sem graça, falando ou escrevendo de uma ou de outra forma você também toma uma posição implícita sobre absorver ou não palavras de outra língua, contribuindo para favorecer uma tendência, entre outras coisas.
Acho isso muito mais interessante do que dar uma de dono da língua e ficar andando regras.
POSSENTI, Sírio. A cor da língua e outras croniquinhas de Linguista. Campinas, SP: Mercado de Letras/Associação de Leitura do Brasil – ALB, 2001, p. 37-38.
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